História das Palavras Cruzadas

O uso religioso do acróstico em poemas da Babilônia e nos textos do "Antigo Testamento" bíblico.
 
Ao Deus e ao Rei, Tudo
Acrósticos de louvação e doutrinação
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      Pelo critério de antigüidade, depois dos acrósticos egípcios vêm os acrósticos dos salmos bíblicos e os "acrósticos acadianos". Em ambos os casos, os mais antigos exemplares conhecidos situam-se em torno do ano 1000 a.C.

       Embora a denominação "acrósticos acadianos" sugira que foram criados pelo povo que fundou a Babilônia por volta de 2350 a.C., a verdade é outra: os acrósticos datam de uma época bem posterior ao domínio acadiano. A associação refere-se mais à região (Acádia) onde foram encontrados esses textos.

      Todos os sete "acrósticos acadianos" atualmente conhecidos têm a forma tradicional. Neles, as sílabas ou signos iniciais das linhas horizontais compõem uma frase no sentido vertical.
  1. O mais antigo desses textos, intitulado "Diálogo de Saggil-kinam-ubbib" e criado por volta de 1000 a.C., revelou o acróstico: "Eu, Saggil-kinam-ubbib, o exorcista, sou um adorador de deus e do rei". Provavelmente, esse é o mais antigo acróstico que contém uma louvação aos poderosos da época. Os acrósticos egípcios centravam a adoração nos deuses, e não nos faraós.

  2. A "Prece de Nabu-ushebshi" traz dois telésticos, acrósticos formados pelos signos finais de cada verso. Uma frase de instrução ("O início e o final do texto devem ser lidos duas vezes") indica ao leitor que a leitura normal, no sentido horizontal, deve ser complementada por uma leitura extra, que leve em consideração apenas o final dos versos. Os acrósticos são: "De Nabu-ushebshi, o exorcista, o servo que proclama sua superioridade" e "De Nabu-ushebshi, o exorcista, o servo dado a preces para adorá-lo".

  3. Uma prece para o deus Marduk, composta pelo rei Assurbanipal (669 - 627 a.C.) contém um acróstico formado pelo signo inicial de cada seção do poema: "Eu sou Assurbanipal, que o invoca. Dê-me vida, Marduk, e eu o glorificarei".

  4. Outro rei babilônico, Nabucodonosor (605 - 562 a.C.), teria sido o autor de um hino em honra do deus Nabu, em que esse nome aparece nos acrósticos.

  5. O deus Marduk é homenageado no quinto "acróstico acadiano" conhecido, provavelmente da época da Assurbanipal. O acróstico: "Nos quatro cantos da Terra, deixe-me louvar seu nome".

  6. "Isso fará com que ele tenha pena dos sofredores" é o acróstico do sexto exemplar. Trata-se, na realidade, de um acroteléstico, já que a frase aparece tanto no início quanto no final dos versos. Atualmente, o acroteléstico é mais conhecido como "acróstico duplo".

  7. O sétimo e último texto possui apenas uma estrofe preservada, daí a dificuldade de se identificar com precisão o conteúdo desse "acróstico acadiano".
      Os acrósticos bíblicos encontram-se no "Antigo Testamento". Quanto às datas, é difícil determiná-las com precisão porque muitos textos da Sagrada Escritura cristã foram redigidos até séculos depois dos acontecimentos descritos. Calculam os estudiosos que a Bíblia completa levou cerca de 1000 anos para ser escrita, sendo freqüente a divergência na descrição dos fatos, de edição para edição. Também dentro de uma mesma edição não é incomum ocorrerem versões variadas para os mesmos fatos, devido à diversidade de autores.
O polêmico livro The Bible Code (O Código da Bíblia), que apresenta nomes de pessoas famosas e frases relatando eventos históricos, obtidas pela combinação numérica do texto sagrado feita por um computador, também traz alguns acrósticos, entre eles o nome de Deus em hebraico. Mas esse nome só apareceria uma vez em todo o "Antigo Testamento". Seria porque Deus só existe um?
      O texto bíblico de mais difícil datação em que se encontram acrósticos são os "Salmos", 150 hinos religiosos de rara inspiração lírica. David, a quem grande parte deles é atribuída, viveu entre 1010 a.C. e 970 a.C. Mas os estudiosos consideram que apenas alguns salmos podem ter sido criados pelo rei hebreu no século X a.C.; a maioria dos hinos deve pertencer ao período entre os séculos VI a.C. e II a.C.

      Existem acrósticos em 12 dos 150 salmos. Nos de número 25 e 34, os versos começam com as letras do alfabeto hebraico, em ordem sucessiva. O mesmo recurso é empregado no famoso Salmo 119, que tem 22 estrofes de 8 versículos. Cada uma delas começa uma letra do alfabeto hebraico, na ordem correta.
Capa de livro sobre o Salmo 119

Livro sobre os acrósticos alfabéticos da Bíblia
      Assim como a David, ao rei Salomão, que viveu entre 970 a.C. e 931 a.C., são atribuídas criações literárias que pertencem a outros autores. O "Livro dos Provérbios" foi escrito provavelmente entre 700 a.C. e 500 a.C., muito depois da morte do sábio rei. Nele novamente aparece o acróstico alfabético, no qual as letras do alfabeto hebraico são usadas em ordem sucessiva (31:10-31). O poema, sem título, tem por tema "a esposa virtuosa".

      O padre britânico Ronald Knox, já citado na seção sobre o Quadrado Sator, foi o autor da mais conceituada tradução moderna do "Antigo Testamento" para o inglês, lançada em 1945. Uma de suas proezas consistiu na transposição do acróstico alfabético da esposa virtuosa, originalmente em hebraico. Eis uma imagem escaneada do resultado:
O acróstico alfabético da esposa virtuosa

A tradução bíblica de Ronald Knox
O acróstico alfabético na tradução de Ronald Knox
       A primeira seção do sétimo livro dos Profetas Menores ("Pronunciação", de Naum) contém um hino em acróstico anunciando a iminente vingança divina contra Nínive, a capital da Assíria. Naum antevê a destruição daquele povo e a libertação final de Israel. A época provável para o registro escrito é o início do século VII a.C. ou o final do século VI a.C.

      A última ocorrência de um acróstico no "Antigo Testamento" pertence às "Lamentações", atribuídas erroneamente a Jeremias, um dos quatro grandes profetas de Israel. Jeremias viveu entre 650 a.C. e 580 a.C., mas a obra foi composta por volta de 540 a.C. Os quatro primeiros dos cinco poemas que lamentam a destruição de Jerusalém pelos babilônios, ocorrida em 586 a.C., apresentam acrósticos alfabéticos. No terceiro poema, as letras são repetidas no início e no final de cada verso, formando um acróstico duplo.

      Na próxima página, leia sobre o mais famoso acróstico da História, que se tornou símbolo do Cristianismo.
Referências
Catholic Encyclopedia, Robert Appleton Company, 1907
Imagem do acróstico alfabético gentilmente cedida por Andy Potter
L'Acrostico nella storia, de Carlo Guerra
Site da Encyclopaedia Britannica
The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984
The Strange World of the Crossword, Roger Millington, Book Club Associates, Londres, 1975
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes