História das Palavras Cruzadas

O início da evolução do acróstico e a história do condenado à morte que se valeu dessa prática poética para tentar escapar do trágico destino.
 
Bispos, Poetas, Amantes e Condenados: Todos ao Acróstico
Começando a brincar com a forma
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      Do primeiro milênio não restam muitos registros de acrósticos. Sabe-se que, no século III ou IV, um dos "pais" da Igreja Católica, Commodianus, compôs em latim vulgar 78 poemetos com esse tipo de cruzamento de palavras, em dois livros sobre a doutrina cristã englobados sob o título de Instructiones (Instruções). Um acróstico alfabético composto por Sechnall, sobrinho de São Patrício, padroeiro da Irlanda, após uma briga e a posterior reconciliação com o tio, faz parte do "Livro dos Hinos da Antiga Igreja da Irlanda". Essa obra se encontra na biblioteca do Colégio Trinity, em Dublin. Sechnall faleceu em 448.

      Do século VI existe o registro de um acróstico de autoria do advogado e poeta egípcio Flavius Dioscorus, além de uma importante criação do maior autor de hinos da Igreja Bizantina, Romanos Mélodos (mais tarde, São): o kontakion, uma forma de sermão em cântico, cujos versos em acróstico possuíam um refrão recorrente que unia as estâncias (de 18 a 30 delas). Somente no século XIII esses cânticos, até então transmitidos oralmente, foram registrados em partituras.

      No final do século VII surge uma novidade. No livro intitulado On Virginity (Sobre a Virgindade), em que pregava uma vida casta, o então bispo e futuro Santo Aldhelm (c. 639 - 709), o primeiro inglês a cultivar a poesia latina, elaborou um engenhoso jogo de palavras. A imagem abaixo foi escaneada de um exemplar de 30 de março de 1867 da revista britânica Notes and Queries (Notas e Indagações):
Acróstico quádruplo

Acróstico quádruplo
METRICA TIRONES NUNC PROMANT CARMINA CASTOS
      A tradução da primeira linha: "Finda a parte em prosa, escreverei em versos estes exemplos de castidade". Cada uma das linhas subseqüentes traz, na primeira letra, a letra seguinte da primeira linha, no sentido normal de leitura (ou seja, E, T, R, I, C, A, etc.), e na última letra, a letra anterior, no sentido invertido de leitura (ou seja, O, T, S, A, C, etc.). A última linha contém as mesmas letras da primeira, escritas no sentido contrário.

      Assim, Aldhelm formou um acróstico quádruplo com a frase inteira na primeira linha e na primeira coluna de letras, e a frase invertida na última linha e na última coluna de letras. Na mesma edição da Notes and Queries, o autor do artigo, John Eugene O'Cavanagh, alegou a existência de outros acrósticos semelhantes datados do século VII e até mesmo anteriores a ele, sem mencionar se eram quádruplos, triplos ou duplos. Um dos autores seria o bispo Fortunato, que faleceu por volta do ano 600. O único outro acróstico mostrado no artigo é o seguinte, triplo, também escrito em latim, sem autor especificado e datado do século VII. O nome "Jesus" aparece 3 vezes no poema:
Acróstico triplo

Acróstico triplo
      Aldhelm escreveu ainda um livro com 100 adivinhas em latim, modelo que foi utilizado por vários escritores nos séculos seguintes. Um desses seguidores, Tatwin, arcebispo de Canterbury (731 - 734), compôs acrósticos em sua coleção de adivinhas, empregando as letras inicial e final de cada primeira linha de verso.

      Outro santo católico, Bonifácio, de origem inglesa, viria a contribuir com acrósticos em poemas (um exemplo: Nithardus vive felix) e em enigmas sobre os vícios e as virtudes, no início do oitavo século. Um dos recursos utilizados por Bonifácio foi dar a resposta do enigma nas letras iniciais dos versos, artifício que o torna o precursor do jogo do acróstico, criado em 1762. Bonifácio viveu entre 680 e 755, morrendo martirizado na Alemanha.

      Acreditam alguns historiadores que o uso freqüente de acrósticos por escritores cristãos deveu-se à influência da presença desse recurso poético em vários textos do "Antigo Testamento" bíblico.

      Embora os exemplos acima deixem claro o espírito lúdico por trás das criações, ainda se passaria mais de 1000 anos até que as experimentações levassem à criação de um jogo de palavras com acrósticos.

      Entre o sexto e o nono séculos, registrou-se o emprego do acróstico principalmente em hinos bizantinos, composições sobre textos gregos que caracterizaram musicalmente o Império Romano do Oriente. Um de seus gêneros consistia num poema de 18 a 24 estrofes, uma delas de caráter introdutório. O acróstico era geralmente formado pela primeira letra de cada seção do poema. Outro gênero, o kanon, apresentava nove odes de motivo bíblico, formadas cada uma por 4 estâncias; as primeiras letras de cada estância revelavam o nome do autor ou a festa à qual o kanon era dedicado.

      No século IX, o beato alemão Rabano Mauro (c. 780 - 856) formou um acróstico num hino em honra da Cruz, e o poeta religioso inglês Cynewulf empregou o alfabeto rúnico para revelar o próprio nome no epílogo de suas quatro obras em versos.
Até o século XVIII, o acróstico exerceu uma função meramente decorativa. Somente a partir daquele século tornou-se um verdadeiro jogo de palavras de caráter social.
      Em 1230, um livro de conselhos devocionais intitulado Ancrene Wisse ou Ancrene Riwle, escrito por um capelão para três freiras, apresentava o nome Brien of Lingen num acróstico interno. Em 1320, um revisor francês de nome Alexandre Primet acrescentou um acróstico ao Livre de Matheolus, original em latim traduzido para o francês, como forma de identificar sua participação na obra.
O livro "Ancrene Wisse"

O livro 'Ancrene Wisse'
      Dois escritores clássicos ficaram associados ao acróstico, no século XIV. O primeiro foi o italiano Dante Alighieri (1265 - 1321), autor da "Divina Comédia". Nessa obra, escrita na segunda década daquele século, Dante utilizou acrósticos nas três grandes divisões do texto: "Inferno", "Purgatório" e "Paraíso".

      O outro escritor clássico foi Boccaccio (1313 - 1375), autor do "Decamerão". Seguindo o costume do século, de homenagear a amada com um acróstico em composições românticas, Boccaccio compôs Amorosa Visione (Visão Amorosa) em 1342, dando um toque de gênio ao costume: a leitura das iniciais dos versos revela três sonetos, dois dedicados a Maria d'Aquino, sua musa, e o outro aos leitores.

      Também no século XIV o compositor francês Guillaume de Machaut (c. 1300 - 1377), o expoente da Ars Nova em seu país, compôs poemas curtos marcados pela engenhosidade verbal, nos quais eram comuns os acrósticos, os trocadilhos e as adivinhas.

      Um emprego muito curioso do acróstico deu-se por um condenado à morte. Enquanto aguardava a execução da sentença, o inglês Thomas Usk escreveu Testament of Love (Testamento de Amor), visando angariar simpatia para a própria causa. As primeiras letras das seções formavam o acróstico Margaret of virtu have merci on TSKNVI ("Margaret virtuosa, tenha misericórdia de Thomas Usk"), um criativo pedido de clemência à Rainha. Quanto ao objetivo imediato, o esforço resultou inútil: Thomas foi executado em 1388. Mas o poema valeu-lhe um lugar de honra na história do acróstico. Uma edição crítica de sua obra foi lançada em agosto de 2001 pela Editora da Universidade de Toronto.

      Na próxima página, leia sobre a introdução do acróstico na literatura portuguesa e sobre o misterioso uso dos acrósticos por William Shakespeare.
Referências
Acrostic Poetry, de Richard Kay
Benét's Reader's Encyclopedia, Quarta Edição, HarperCollins Publishers, Nova Iorque, 1998
Notes and Queries, George Bell, Londres, 30/3/1867, imagens reproduzidas com permissão
Site da Biblioteca do Congresso Norte-Americano
Site da Encyclopaedia Britannica
The Columbia Encyclopedia, Quinta Edição, Columbia University Press, 1993
The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984
What's Gnu? A History of the Crossword Puzzle, Michelle Arnot, Random House, Nova Iorque, 1981
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes