| História das Palavras Cruzadas |
| A evolução do acróstico, de um simples elemento decorativo nos poemas a um jogo de palavras de caráter social. |
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O Trabalho Começa a Virar Brincadeira
O primeiro jogo moderno de cruzamento de palavras ¾¾¾¾¾¾ |
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O ano de 1583 trouxe uma novidade que prenunciava o caminho a ser trilhado pelo acróstico nos séculos seguintes: a publicação do livro Les Bigarrures et Touches du Seigneur des Accords (As Confusões e Estocadas do Senhor da Harmonia), escrito por Etienne Tabourot ¾ a primeira obra inteiramente dedicada aos jogos de palavras. Lançado em Paris, Les Bigarrures continha, entre outras atrações, rébus (enigmas visuais), trocadilhos, anagramas, palíndromos e acrósticos.
A partir do século XVII, graças ao uso cada vez mais freqüente dos tipos móveis para a impressão de textos, passou a ocorrer uma lenta e progressiva disseminação dos livros, jornais e revistas. Esse fato contribuiria para a popularização do acróstico e, como veremos depois, também para uma aceitação cada vez maior dos jogos de palavras. No início daquele século destaca-se o acróstico inicial da comédia "Volpone" (1606), escrita pelo dramaturgo inglês Ben Jonson. Considerada uma obra-prima do Teatro e ainda freqüentemente representada, "Volpone" é uma crítica ao egoísmo humano, centrada na história de um avarento que finge estar morrendo para conseguir favores de todos os que desejam fazer parte de seu testamento. Eis o acróstico: |
| The Argument (O Enredo) |
V olpone, childless, rich, feigns sick, despairs,
O ffers his state to hopes of several heirs
L ies languishing: his parasite receives
P resents of all, assures, deludes; then weaves
O ther cross plots, which ope themselves, are told,
N ew tricks for safety are sought; they thrive: when bold,
E ach tempts the other again, and all are sold.
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| Tradução literal |
V olpone, sem filhos, rico, finge estar doente, desespera-se, O ferece seu patrimônio a vários pretendentes a herdeiros, L ânguido em seu leito: seu parasita recebe P resentes de todos, assegura-os, engana-os; depois enreda O utras tramas cruzadas, que se desenvolvem, são contadas, N ovos truques para pôr-se em segurança são tentados; florescem: confiantes, E sses pretendentes tramam uns contra os outros, e todos perdem. |
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Um curioso exemplo de acróstico é este, uma mensagem de Natal enviada em 1612 pelo médico e alquimista alemão Michael Maier, notório defensor dos Rosa-cruzes, ao rei inglês James I.
Em 1641, a obra "Aplausos da Universidade a El Rey João IV" foi publicada pela Universidade de Coimbra, contendo poemas latinos com acrósticos, compostos por poetas portugueses. Data dessa época a obra Common-Place Book of the Seventeenth Century (O Livro do Senso Comum do Século Dezessete), no qual aparecem dois acrósticos, um dos quais, tradicional, homenageia o político inglês John Pym, falecido em 1643. O mais curioso deles é escrito em latim e contém uma novidade: a palavra Amore (Amor) pode ser lida no início de cada verso com o auxílio da primeira letra dos versos superiores. Um século depois, o jogo de eliminar uma letra a cada vez, deixando uma palavra completa, seria conhecido como successive beheadment (decapitação sucessiva): |
Acrósticos sobre Amor e John Pym
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| Henry Marten (1602 - 1680) foi um político britânico antimonarquista que assinou, com vários colegas do parlamento, a autorização para a execução do rei inglês Carlos I, em 1649, após uma guerra civil vencida pelos partidários do Parlamento (comandados por Oliver Cromwell) contra os defensores do realeza. O rei sofreu a execução, mas a História dá voltas, e Henry acabou julgado pelo crime, passando os 20 anos finais de sua vida encarcerado numa torre, hoje chamada Marten's Tower (a Torre de Marten) por sua causa. |
Livro sobre Henry Marten, lançado em 2000
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| Enterrado na igreja de St. Mary, na paróquia de Chepstow, Henry foi homenageado com um acróstico gravado na lápide de sua sepultura. Essa imagem escaneada do periódico Illustrated London News de 1856 mostra o poema: |
Acróstico fúnebre de Henry Marten
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A louvação aos poderosos inspirou outro acróstico, agora na Itália, em obra lançada em 1761. De autoria de Raimondo Montecuccoli (1609 - 1680), destinava-se ao imperador austríaco Leopoldo I, sob o qual serviu Raimondo na guerra contra os turcos. O acróstico: AL GRANDE LEOPOLDO ("Ao Grande Leopoldo").
Um poema satírico do famoso escritor classicista John Dryden (1631-1700), integrante do texto de Mac Flecnoe (1682), nos dá a exata dimensão da popularidade dessa forma entre os literatos do final do século. O trecho abaixo foi escaneado da Blackwood's Edinburgh Magazine (Revista de Edinburgh, de Blackwood), edição de agosto de 1845: |
Crítica de John Dryden aos acrósticos
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| A tradução literal |
Teu gênio te chama a não perseguires a fama
Em versos iâmbicos incisivos, mas sim em doce anagrama:
Não mais escrevas peças teatrais e escolhe para domínio
Alguma província pacífica da Terra do Acróstico.
Lá, tu poderás alçar vôos e levantar altares como queiras,
E torturar uma pobre palavra de dez mil maneiras.
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| No século XVIII, a Literatura de vários países (México, França, Inglaterra, etc.) registrou essa forma de cruzamento de palavras, ora como um instrumento de exaltação a outra pessoa, ora como um meio de identificação do autor (ou mesmo do compilador de uma obra coletiva), fato que permitiu a atribuição de autoria em muitas obras que chegaram ao nosso tempo sem que essa informação constasse da capa ou da folha de rosto do livro. |
| Segundo os historiadores, o acróstico e o quadrado de palavras foram fundamentais para o surgimento das palavras cruzadas: do acróstico veio o princípio de que as palavras verticais poderiam cruzar com as horizontais, sendo diferentes delas; e do quadrado de palavras veio a idéia de uma forma geométrica na qual ficaria contido o passatempo. |
| O escritor Tony Augarde, na obra The Oxford Guide to Word Games (O Guia Oxford dos Jogos de Palavras), menciona a afirmação do poeta inglês Joseph Addison, publicada no sexagésimo número do diário britânico The Spectator (O Observador), em 1711, de que este havia travado conhecimento com o acróstico triplo. Eis a passagem, reproduzida na Notes and Queries (Notas e Indagações) de 18 de maio de 1867: |
Nota sobre o acróstico triplo
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O periódico "The Spectator"
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| A forma compõe-se de colunas de letras no início, no meio e no final dos versos. Mas, como vimos antes no exemplo do acróstico triplo feito com o nome "Jesus", esse feito já havia sido realizado no século VII. O fato realmente importante ocorrido no século XVIII, para a história dos jogos de palavras, é a transformação do acróstico num jogo social. A edição da London Magazine (Revista de Londres) de novembro de 1762 trouxe o mais antigo exemplar conhecido do jogo: |
A place of confinement, as dark as the night;
What's us'd as a token when persons unite;
That part of the day, when the sun disappears,
And leaves us surrounded with numerous fears;
What the heart ne'er enjoys when the mind's void of rest;
A word often us'd to deny a request;
These initials, when properly placed, you'll find:
The name of a damsel, that's constant and kind,
With modesty grac'd and with beauty adorn'd,
With wisdom endu'd, and to virtue conform'd.
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| A tradução do poema |
Um lugar de confinamento, tão escuro quanto a noite;
O que é usado como um símbolo quando as pessoas se unem;
Aquela parte do dia em que o Sol desaparece,
E nos deixa cercados de numerosos receios;
O que o coração nunca aprecia quando a mente está sem descanso;
Uma palavra geralmente usada para negar um pedido;
Essas iniciais, quando dispostas com propriedade, você terá:
O nome de uma senhorita, que é tão comum quanto gentil,
Agraciada com modéstia e adornada com beleza,
Dotada de sabedoria e à virtude conformada.
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| Eis a solução do poema, tal como foi mostrada no livro The Oxford Guide to Word Games (O Guia Oxford dos Jogos de Palavras), de Tony Augarde, o único que traz o passatempo: |
G RAVE
R ING
E VENING
E ASE
N O
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Tradução das respostas: SEPULTURA - ANEL - ENTARDECER - SOSSEGO - NÃO. O nome da homeageada é Miss GREEN (nome lido na primeira coluna de letras). O passatempo seguia o padrão das charadas antes publicadas na revista, cuja resposta era sempre um nome de um lugar situado na Grã-Bretanha ou de uma pessoa.
O mérito da descoberta deve-se a Will Shortz, atual editor de palavras cruzadas do jornal The New York Times e maior autoridade mundial nos jogos de palavras. O jogo foi apresentado na tese sobre Enigmatologia redigida na década de 70 do século passado, e reproduzido em artigo da revista Word Ways (Caminhos Lingüísticos) de agosto de 1973. Na próxima página, veja as imagens originais desse jogo e da revista em que foi publicado. |
| Referências |
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An Early French Book of Word Play, Will Shortz, "Word Ways", 1979
Blackwood's Edinburgh Magazine, Escócia, agosto de 1845, imagem reproduzida com permissão British Word Puzzles, Will Shortz, "Word Ways", Vol. 6, Number 3, 1973 Illustrated London News, George C. Leighton, Londres, 1856 Imagem do Spectator reproduzida com a permissão de Sam (TheKhidd do eBay) Notes and Queries, George Bell, Londres, 26/3/1859 e 18/5/1867, imagens reproduzidas com permissão Site da Biblioteca do Congresso Norte-Americano The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984 The Rosicrucians, Christopher McIntosh, Samuel Weiser Inc., Maine, 1997 The Strange World of the Crossword, Roger Millington, Book Club Associates, Londres, 1975 Un Esempio Secentesco, de Claudio Guerra Volpone, texto on-line What's Gnu? A History of the Crossword Puzzle, Michelle Arnot, Random House, Nova Iorque, 1981 |
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice Geral | Ancestrais | Os Acrósticos
Autor: Sérgio Barcellos Ximenes
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