História das Palavras Cruzadas

Imagens inéditas do primeiro jogo de cruzamento de palavras da era moderna.
 
Foi Aqui que Tudo Começou
O jogo do acróstico
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      O jogo do acróstico reproduzido na página anterior e mostrado com as imagens originais nesta página representa o início de uma evolução histórica que, ao final de um século e meio, levaria às palavras cruzadas. Esse primitivo jogo, no qual apenas a coluna inicial de letras cruzava com as outras palavras escritas no sentido horizontal, gerando um acróstico, foi o primeiro jogo de cruzamento de palavras da era moderna.

      Como vimos antes, a idéia do jogo já estava implícita nos enigmas criados por São Bonifácio na primeira metade do século VIII, os quais traziam a resposta na primeira coluna de letras dos versos. Entretanto, mais de 1000 anos seriam necessários para dar uma seqüência lógica àquela invenção. E, mesmo assim, a evolução a partir do jogo do acróstico seria lenta. Do primeiro jogo do acróstico simples (mostrado abaixo) para o do acróstico duplo haveria um hiato de 90 anos (1762-1852). Ou seja, a idéia aparentemente óbvia de cruzar mais uma palavra no jogo do acróstico, enriquecendo o passatempo, parece não ter cativado os enigmistas daquela época. Mas a partir do jogo do acróstico duplo a evolução seria bem rápida, como veremos adiante.

      Eis a imagem do jogo publicado na revista The London Magazine (A Revista de Londres), jamais divulgada em nenhuma obra sobre os jogos de palavras. O passatempo saiu na edição de novembro de 1762, e a resposta foi publicada no número seguinte, em dezembro de 1762. Repare que, naquele tempo, o "s" do interior de uma palavra era impresso como "f":
O jogo do acróstico

O primeiro jogo do acróstico
      Como se pode ver pela imagem, o passatempo recebeu o título A Rebus (Um Rébus), nome que tomou emprestado de um tradicional enigma figurado, jogo em que desenhos e ilustrações representam letras e palavras que devem ser descobertas pelo jogador.

      Por essa época, o título rebus era vez por outra aplicado a enigmas em versos, alternativamente à denominação usual de enigma. Como se pode ver pela imagem abaixo, a charada, criada no início do século XVIII, recebia às vezes o mesmo título. Daí a possível extensão do significado para o novo passatempo:
Rebus (charada) publicado em 1750

Enigma intitulado 'Rebus'
       A imagem foi escaneada da edição de 26 de dezembro de 1750 da publicação londrina The Gentleman's Magazine (A Revista do Cavalheiro). Note que a revista não revela o nome do autor do jogo, fato infelizmente nada incomum na "pré-história" das palavras cruzadas.

      Assim como a Gentleman's Magazine, a London Magazine era uma revista mensal destinada às classes cultas da Grã-Bretanha. Publicava artigos sobre fatos internacionais, literatura, história e estatística, entre outros assuntos.
A revista "London Magazine"

A revista 'The London Magazine'
      Eis a resposta do jogo, publicada no número de dezembro de 1762.
A resposta do jogo

Resposta do jogo 'A Rebus'
Resposta do jogo 'A Rebus'
      Ao contrário do que sugere Tony Augarde no livro The Oxford Guide to Word Games (O Guia Oxford dos Jogos de Palavras), a apresentação tradicional dos jogos de acróstico não teve início nesse exemplar específico. Nele não aparecem as palavras colocadas uma abaixo da outra, como foram mostradas naquela obra. As duas respostas do original, diferindo apenas na primeira palavra, foram enviadas por dois leitores diferentes, em forma de poesia. Eis as traduções:
                 O túmulo é um confinamento ¾ tão escuro quanto a noite,
                 Um Anel ¾ é o símbolo quando as pessoas se unem;
                 Chamamos de Noite aquela parte do dia,
                 Quando desprovidos do prazer dos raios de Febo;
                 Sossego ¾ some do coração, quando a mente está sem descanso,
                 E Não ¾ usamos com freqüência para negar um pedido;
                 Pelas iniciais dessas palavras, acho que pode ser visto, 
                 Que o nome de sua fiel e gentil senhorita é GREEN.

                 Porque um confinamento o Fim é, e tão escuro quanto a noite;
                 Um Anel é o símbolo quando as pessoas se unem;
                 O tempo é a Noite quando o Sol desaparece,
                 E nos deixa cercados de numerosos receios;
                 O coração não tem Sossego quando a mente está sem descanso,
                 E acho que a palavra é Não quando se nega um pedido;
                 Pelas iniciais dessas palavras é fácil descobrir 
                 Que a senhorita GREEN é a dama tão fiel e gentil.
Capa da edição com a resposta

A edição de dezembro de 1762 da 'London Magazine'
      Assim como era costume nos jogos de enigmas e charadas, as publicações ofereciam o passatempo numa edição e publicavam a resposta na edição seguinte. E sempre escolhiam respostas enviadas pelos leitores, como uma forma de incentivo à participação. Nos três casos (enigmas, charadas e jogos de acrósticos), tanto as definições quanto as respostas eram escritas em versos ¾ característica que só viria a ser alterada no início do século XIX.

      Na próxima página, conheça a evolução do acróstico nos séculos XVIII e XIX.
Referências
Imagem do rébus da revista Gentleman's Magazine (26/12/1750) reproduzida com permissão
Imagens da London Magazine (1, 2 e 5) reproduzidas com a permissão de Bill Bucklin Books e Classypix
The London Magazine, R. Baldwin, Londres, novembro e dezembro de 1762
The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984
The Strange World of the Crossword, Roger Millington, Book Club Associates, Londres, 1975
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes