| História das Palavras Cruzadas |
| O acróstico do peixe, que se tornou símbolo do Cristianismo nos primeiros séculos da doutrina. |
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O Mais Famoso de Todos os Acrósticos
E o mais perigoso, também ¾¾¾¾¾¾ |
| Ainda no primeiro milênio antes de Cristo, existe o curioso registro de um acróstico do século IV a.C., composto pelos egípcios para ensinar a ordem dos sons na linguagem daquele povo. Essa composição seguia o mesmo princípio dos acrósticos alfabéticos hebraicos, que visavam facilitar a memorização dos poemas sagrados por meio do uso de uma ordem já conhecida (a das letras do alfabeto). A seguinte resenha de um livro centrado em acrósticos, A Century of Acrostics on Names of Eminent Men (Um Século de Acrósticos sobre os Nomes de Homens Eminentes), publicada em 29 de dezembro de 1855 no periódico norte-americano Littell's Living Age (Tempo Vivo, da Littell), explica a necessidade do recurso: |
Uso do acróstico no auxílio à memorização
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"Quando os documentos escritos eram raros, todo artifício era empregado para chamar à atenção ou para fixar na memória os versos cantados pelos bardos ou pelos professores. As associações alfabéticas constituíam ajudas óbvias e convenientes para esse propósito."
Uma outra curiosidade sobre o povo hebreu: a palavra "macabeus" é, na verdade, um acróstico formado pelas letras iniciais das palavras hebraicas Mi kamocha ba'elim Adonai ("Quem entre os poderosos é como Tu, ó Deus?"). No século III a.C., o poeta e astrônomo grego Aratos (c. 315 - 240 a.C.) elaborou uma espécie de enciclopédia dos conhecimentos astronômicos e meteorológicos do seu tempo na obra Phainómena (Os Fenômenos). A partir da década de 60 do século XX, três acrósticos foram descobertos nesse texto pelos estudiosos. As palavras que eles formam refletem a visão sistemática e organizada do Universo ensinada por Aratos em sua obra. Os acrósticos também constituíram uma prática das sibilas da Eritréia (região da África oriental) em todas as suas profecias, segundo relato do político e orador romano Cícero (106 - 43 a.C.). Essas adivinhas escreviam a predição, geralmente incompreensível, em folhas de vegetais que depois eram ordenadas para que se formasse uma frase inteligível com a letra inicial de cada uma delas. Na mesma obra, De Divinatione (Sobre a Adivinhação - LIV, 110), redigida em 44, Cícero menciona que o poeta, dramaturgo e historiador Quintus Ennius (239 - 169 a.C.) teria composto o acróstico Quae Q. Ennius fecit (Q. Ennius escreveu isto) em uma de suas criações. Quintus, considerado o fundador da literatura romana, foi o autor de uma citação comum em assinaturas de e-mails norte-americanos: "A mente preguiçosa não conhece suas próprias vontades". Ainda em Roma, o dramaturgo Plauto (254 - 184 a.C.) tinha o costume de sintetizar as tramas de suas comédias por meio de um acróstico. |
| O peixe, símbolo místico dos primitivos cristãos, derivou de um acróstico formado pelas iniciais das letras gregas de "Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador". Veja abaixo uma imagem do peixe ainda preservada nas catacumbas romanas, onde os cristãos primitivos se encontravam para praticar secretamente o culto. |
O símbolo cristão do peixe
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| O mais famoso acróstico da Antigüidade e de toda a História, sem dúvida, foi criado pelos primitivos cristãos. Tomando as letras iniciais da frase grega Iesous Christos, Theou Uios, Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador), que era escrita com uma palavra abaixo da outra, formou-se o acróstico ichthus (peixe), animal adotado como símbolo místico por esses religiosos. Eis o acróstico, em grego: |
O acróstico do peixe, em grego
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Além de ser o acróstico mais conhecido, esse foi também o mais perigoso em toda a História. A prática do Cristianismo só se tornou totalmente liberada no início do século IV. Durante o primeiro século da Era Cristã, os cristãos foram perseguidos e presos. Muitos deles faleceram nas arenas romanas, lutando contra leões. A associação de qualquer cidadão romano com esse acróstico, sinal secreto de adesão à doutrina cristã, bastava para que ele se tornasse uma vítima da intolerância religiosa do Estado romano.
Esse mesmo acróstico foi parte central de uma das mais famosas e duradouras fraudes literárias da História, que alguns estudiosos consideram fundamental para a difusão do Cristianismo em seus primeiros séculos de existência. Na próxima página, conheça essa fraude, inserida nos textos dos "Oráculos Sibilinos". |
| Referências |
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De Divinatione, Cícero Imagem da Littell's Living Age, 29/12/1855, reproduzida com a permissão do site do Projeto Making of America Imagem do peixe reproduzida com a permissão do site das Catacumbas Domitilla Site da Encyclopaedia Britannica The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984 The Strange World of the Crossword, Roger Millington, Book Club Associates, Londres, 1975 What's Gnu? A History of the Crossword Puzzle, Michelle Arnot, Random House, Nova Iorque, 1981 Written in the Stars: Poetry and Philosophy in the Phaenomena of Aratus, de Richard L. Hunter |
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice Geral | Ancestrais | Os Acrósticos
Autor: Sérgio Barcellos Ximenes
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