| História das Palavras Cruzadas |
| A introdução do acróstico na literatura portuguesa e o uso mais polêmico desse enfeite poético, que poderia revelar o verdadeiro autor das obras de William Shakespeare. |
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Até Tu, Shakespeare?
Os acrósticos ocultos do Bardo Imortal ¾¾¾¾¾¾ |
| Em 1864 foi lançado o livro Brother Hans' Hymns to Mary (Hinos do Irmão Hans para Maria), contendo poemas religiosos descobertos na biblioteca pública imperial de São Petersburgo, na Rússia. Os poemas, provavelmente escritos na Holanda, traziam alguns acrósticos sobre a "ave-maria" e eram datados do século XIV, conforme esta notícia publicada no periódico norte-americano Princeton Review (Revista de Princeton): |
Acrósticos sobre a ave-maria
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No final do século XIV, o cristão Vicente Ferrer escreveu o livro De fine mundi (Sobre o Fim do Mundo), que versava sobre o Anticristo e trazia, em sua versão alemã, na última página, um poema cujas letras iniciais formavam o acróstico Frater Georius. Tido como milagreiro, Vicente foi canonizado no século seguinte.
A favorita do rei francês Carlos VII, Agnes Sorel, também conhecida como dame de Beauté (a Dama da Beleza), pode se constituir na personalidade que, em toda a História, mais tenha sido homenageada com acrósticos ¾ a valer uma informação do artigo The True History of Agnes Sorel (A Verdadeira História de Agnes Sorel), escrito por R. H. Horne para a revista International Monthly Magazine de junho de 1851. Agnes Sorel faleceu em 1449, aos 40 anos de idade, de uma disenteria provavelmente causada por envenenamento, um crime que pode estar ligado à influência que exercia sobre o rei, encantado por sua beleza. Segundo o autor, "em 1789, a biblioteca do capítulo (da cidade) de Loches possuía um manuscrito contendo quase mil sonetos latinos em louvor a Agnes, todos com acrósticos, compostos por um cônego da cidade": |
Acrósticos sobre Agnes Sorel
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| Após a morte de Carlos VII, os religiosos de Loches pediram ao novo rei, Luís XI, que retirasse o túmulo de Agnes Sorel do coro da igreja de Loches, devido à "vida dissoluta" que caracterizara a favorita. Luís XI respondeu: "Consinto, desde que vocês devolvam todas as doações que ela lhes fez". |
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Publicada por volta de 1490 na Suíça, a obra De Moribus et Facetijs Mense, de Reinerus, apresentava as primeiras letras das 15 primeiras linhas formando o acróstico Reinerus mep[h]ecit. Outro livro em latim lançado por essa época, Modus legendi abbreuiaturas in utroq[ue] iure, siue Processus iuris., trazia o nome do autor, Wernherus, revelado num acróstico. O fato de ser uma obra jurídica, e não poética como as anteriores, mostra que a prática já estava popularizada por essa época. Um romance italiano de autor desconhecido, publicado em 1499, tornou-se tão conhecido pela beleza de sua xilografia quanto pelo uso do acróstico ao longo da obra, formado pelas letras das xilogravuras. Intitulado Hypnerotomachia Poliphili (A luta amorosa, em sonho, do amante de Polia), traz no texto o acróstico POLIAM FRATER FRANCISCUS COLUMNA PERAMAVIT ("Irmão Francesco Colonna, que amou intensamente a Polia"). Há uma cópia on-line do romance disponível no site da editora do Massachusetts Institute of Technology. O século XVI marca o uso do acróstico na Literatura portuguesa com o lançamento do "Cancioneiro Geral", em 1515. A obra, uma compilação de poemas apresentados nas cortes de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel, foi publicada por Garcia de Resende em Portugal e revela uma vasta produção poética abrangendo do fim do período medieval ao início do período clássico na Literatura daquele país. Ainda no século XVI, a Era Elisabetana (1533-1603) veio reviver uma prática da Babilônia, agora de modo mais elaborado: a louvação oficial dos poderosos por meio de poemas contendo acrósticos. O mais ilustre representante dessa tendência foi John Davies (1569-1626), autor de Hymnes of Astraea (1599). Em cada um dos 26 poemas da obra, todos com duas estrofes, Davies formou os nomes "ELIZABETHA REGINA" (Rainha Elizabeth) com as primeiras letras dos versos. |
| Seriam os acrósticos nas peças de William Shakespeare, nos quais um estudioso descobriu a "mão" de Francis Bacon, a prova de que as peças do Bardo Imortal foram na verdade escritas pelo maior pensador inglês do século XVI? |
Certamente, o mais famoso cultor dos acrósticos teria sido o poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616). Entretanto, o mistério está associado ao uso desse recurso poético pelo Bardo Imortal, autor das peças "Romeu e Julieta", "Hamlet" e "Otelo", entre outras obras-primas. Em "Sonho de uma Noite de Verão" (c. 1595), ato 3, cena 1, descobriu-se que parte de uma estrofe contendo uma fala da personagem Titânia traz um acróstico quase perfeito, como se poderá constatar abaixo:
T hou shalt remain here, whether thou wilt or no.
I am a spirit of no common rate,
T he summer still doth tend upon my state;
AN d I do love thee. Therefore go with me.
I 'll give thee fairies to attend on thee;
A nd they shall fetch thee jewels from the deep ...
A partir de então, surgiu a dúvida: foi uma criação intencional? E quantos outros acrósticos semelhantes poderão existir na obra de Shakespeare?
Mas essa dúvida estética não se compara, pela importância histórica, à que foi gerada por vários historiadores sobre a real identidade do autor das obras atribuídas ao famoso ator do Globe Theatre. O escritor William Stone Booth (1824-1926) considerava que a resposta estaria justamente nos acrósticos. Em 1909, o menos famoso dos dois Williams escreveu o livro Some acrostic signatures of Francis Bacon, bacon Verulam of Verulam, viscount St. Alban, together with some others, all of which are now for the first time deciphered and published (Algumas assinaturas de Francis Bacon em acróstico, assim como algumas outras, todas elas decifradas e publicadas pela primeira vez). |
O livro sobre os acrósticos de Francis Bacon
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No livro, que aceita a teoria de atribuição das obras de Shakespeare ao político e filósofo Francis Bacon (1561-1626), o autor toma como principal prova dessa autoria secreta uma série de acrósticos que teriam sido intencionalmente criados por Bacon nas peças de "Shakespeare" para revelar seu verdadeiro nome. Veja a ficha da obra na Biblioteca do Congresso Norte-Americano:
Author: Booth, William Stone, 1864-1926.
Title: Some acrostic signatures of Francis Bacon, bacon
Verulam of Verulam, viscount St. Alban, together with some
others, all of which are now for the first time deciphered
and published, by William Stone Booth.
Published: Boston and New York, Houghton Mifflin company,
1909.
Description: 631 p. illus. 29 cm.
LC Call No.: PR2944.B7
Subjects: Bacon, Francis, 1561-1626 -- Cipher.
Shakespeare, William, 1564-1616 -- Authorship --
Baconian theory.
Other authors: George Fabyan Collection (Library of Congress)
DLC
Control No.: 7283016
O ano de 1886 marcou a fundação da Francis Bacon Society, destinada a promover a aceitação acadêmica da autoria dos textos shakespearianos por Francis Bacon. Já os adeptos da atribuição da autoria a Edward de Vere, conde de Oxford (1550 - 1604) fundaram a Shakespeare Oxford Society. Eles também descobriram acrósticos, nos sonetos atribuídos a Shakespeare, que conteriam a assinatura de Edward. A polêmica continua a render estudos e obras: em 2001, a escritora Diana Price lançou o livro Shakespeare's Unorthodox Biography (A Biografia Não Ortodoxa de Shakespeare), em que afirma não haver nenhum documento do final do século XVI ou do início do século XVII que aponte o William Shakespeare de Stratford on Avon como autor de uma única obra literária ou dramática.
Na próxima página, acompanhe a transformação do acróstico, de um simples elemento decorativo de poemas para um jogo de palavras de caráter social. |
| Referências |
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Benét's Reader's Encyclopedia, Quarta Edição, HarperCollins Publishers, Nova Iorque, 1998 Imagem da Princeton Review, abril de 1864, reproduzida com a permissão do site do Projeto Making of America Imagem da International Monthly Magazine reproduzida com a permissão do site do Projeto Making of America L'Acrostico nella storia, de Carlo Guerra Making the Alphabet Dance, Ross Eckler, St. Martin's Griff, Nova Iorque, 1997 Site da Biblioteca do Congresso Norte-Americano Site da Encyclopaedia Britannica Site da Shakespeare Oxford Society The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984 What's Gnu? A History of the Crossword Puzzle, Michelle Arnot, Random House, Nova Iorque, 1981 |
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice Geral | Ancestrais | Os Acrósticos
Autor: Sérgio Barcellos Ximenes
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