História das Palavras Cruzadas

Literatos, jornalistas e poetas contra-atacam, tentando conter o modismo e humilhar os apreciadores do jogo do acróstico duplo.

 

Xô, Acróstico!
A patrulha literária contra-ataca
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      Na página sobre o jogo de acróstico simples, criado em 1762, vimos que os opositores do acróstico já expressavam abertamente sua contrariedade, antes mesmo do surgimento do modismo dos jogos. O poema de John Dryden data do século XVII. No século seguinte, na mesma passagem do Spectator em que o também poeta inglês Joseph Addison informava sobre a existência do acróstico triplo, ele externou uma opinião categórica.
Crítica de Addison ao acróstico

Crítica de Addison ao acróstico
      "O acróstico foi provavelmente inventado na mesma época do anagrama, embora seja impossível decidir qual dos dois inventores era o maior imbecil." Na mesma linha, um artigo publicado por um escritor no periódico Southern Literary Messenger (Mensageiro Literário do Sul), em novembro de 1837, fez um retrato completo da mediocridade do homem comum daquele tempo, incluindo entre essas características:
Crítica aos cultores do acróstico

Crítica aos cultores do acróstico
      "Ele compôs um Acróstico sobre cada homem, cada mulher e criança no município; e eu lhe contarei como o faz: ele diz que é a coisa mais simples do mundo. Escreve as iniciais na linha vertical e depois, sem absolutamente nenhuma referência ao indivíduo em particular que será descrito, redige o que lhe vem à mente, e fica tão satisfeito com suas produções como se elas fossem os mais bem-feitos retratos. Eu poderia fazer um verso tão bom quanto aquele com um machado de lenhador."

      Às vezes, a crítica se expressava em tom de ironia, vindo em meio a um texto humorístico. Em janeiro de 1853, um conto intitulado Virginia, na revista Putnam's Magazine, trouxe o seguinte diálogo:
Sátira sobre os cultores do acróstico

Sátira aos cultores do acróstico.
Tradução
       ¾ Poesia, minha cara madame, ¾ disse Dashwood, fazendo uma exagerada mesura para vovó ¾ é definida pelos médicos como uma congestão crônica ou um extravasamento do cérebro, que ocorre em pessoas de temperamento muito nervoso ou sangüíneo.
       ¾ E que deve ser aliviada com uma decapitação parcial ¾ disse Robert, gargalhando.
       ¾ E que deve ser mitigada por sanguessugas e antiflogísticos (antiinflamatórios). Os casos de longa duração destinam-se ao hospício, assim pensam esses profissionais ¾ disse Dashwood.
       ¾ Mas você escreve acrósticos ocasionalmente, não é mesmo? ¾ perguntou a senhorita Blanton.
       ¾ Foi um acróstico feito para esta dama ¾ disse Dashwood, virando-se para Louise ¾ que me trouxe todos esses terríveis efeitos que lhes estou relatando. Meu médico me alerta para ter cuidado com os acrósticos. Ele os considera a mais inflamatória e perigosa espécie de poesia.
      O desprezo por essa forma poética também se expressou nas resenhas literárias da época. Em 29 de dezembro de 1855, ao comentar a obra A Century of Acrostics para a revista The Living Age (Tempo Vivo) o jornalista fez questão de ressaltar: "Na nossa linguagem, seu uso (o do acróstico) tem sido quase totalmente um exercício de ingenuidade, sendo visto como apropriado apenas para assuntos triviais e inserido entre as 'bobagens literárias' ".
Crítica a um livro de acrósticos

Crítica a 'Um Século de Acrósticos'
      Mais tarde, em 1864, um comentário publicado na revista britânica Notes and Queries (Notas e Indagações) considerava os palíndromos, anagramas e acrósticos como misdirected literary labour (trabalho literário mal direcionado).

      Mas a luta aparentava ser inútil porque não só os escritores, como também as pessoas comuns tornaram-se adeptas do acróstico. Prova disso é o aviso abaixo, publicado na revista feminina Godey's Lady's Book (O Livro da Dama, de Godey) de outubro de 1862. A revista informava às leitoras sobre a política oficial de não publicar acrósticos enviados por elas e destinados a outras pessoas:
Acrósticos na "Godey's Lady's Book"

Oferta de acrósticos na 'Godey's Lady's Book'
      "Poesia e acrósticos destinados a determinadas pessoas são do exclusivo interesse daquelas a quem são dedicados, e devem ser enviados a essas pessoas."

      Se os acrósticos eram criticados, tanto mais os jogos baseados neles. A oposição era maior quanto mais o passatempo ganhava espaço nos salões da sociedade, nos periódicos, nas revistas e nos livros. Esse trecho de um artigo sobre as trivialidades da conversa nossa de cada dia ilustra o baixo conceito do jogo do acróstico aos olhos dos críticos de então.
Uso dos jogos de palavras para seduzir mulheres

Uso dos jogos de palavras para encantar mulheres
      O artigo foi publicado na revista The Living Age em 9 de fevereiro de 1867 e informava que "... as jovens gostam de adivinhas, e se um homem tiver o cuidado de contar à sua companhia uma nova adivinha, ele será visto como um bom partido e hábil na conversação". Entretanto, continuava o autor, como todos já conhecem as respostas para quase todas as adivinhas, a "humanidade" teria encontrado uma alternativa num "desajeitado substituto", o jogo do acróstico duplo.

      Também é da Living Age, edição de 27 de junho de 1868, esta reprodução de um artigo publicado no Saturday Review (Revista Literária do Sábado), criticando os artifícios das publicações da época para atrair leitores. Observe como o autor revela uma prática corriqueira dos jornais daquele tempo:
O jogo do acróstico duplo como atrativo

Crítica ao uso do jogo do acróstico duplo como atrativo
Crítica - 2
      "Outro (expediente) segue a linha das histórias arrebatadoras e deixa um mistério não resolvido ao final de cada seção, como uma isca para induzir-nos a consultar o (número) seguinte, com base no mesmo princípio pelo qual alguns jornais adotam o plano mais simples de oferecer um jogo do acróstico duplo e a resposta a ele em edições alternadas."

      Na mesma revista, o autor de um artigo publicado em 7 de novembro de 1874 aproveitou a menção à Esfinge para criticar o modismo.
Crítica ao modismo

Crítica ao modismo dos jogos de acróstico
      Segundo o autor, o desafio das adivinhas proposto pela Esfinge possivelmente era pior que o "tédio mortal" de atormentar as pessoas com os jogos do acróstico duplo. Na mesma linha e no mesmo periódico, um curioso artigo sobre tudo aquilo que, na visão do autor, representaria exemplos de "pensamentos desperdiçados", incluía ... adivinhe o quê:
Mais críticas

O jogo do acróstico duplo como um desperdício de tempo
      "... E o pródigo desperdício das mentes femininas com o jogo do acróstico duplo, com o bordado, o crochê e, acima de tudo ¾ vestuário." A crítica foi publicada em 13 de maio de 1875. Em 5 de fevereiro de 1876, o Appleton's Journal (Revista da Appleton), na seção "Miscelânea", reproduzia um artigo do jornal londrino Daily News (Notícias Diárias), no qual se comparava o jogo com um novo passatempo de soletração chamado spelling-bee, considerando este último o melhor dos dois por ensinar etimologia, enquanto o outro traria apenas conhecimentos "inúteis" para seus praticantes.
Crítica aos adeptos do jogo

Crítica aos adeptos do jogo do acróstico duplo
      O fato histórico importante revelado na crítica é que uma "classe numerosa" de pessoas estaria realizando, então, uma intensa atividade de consulta a índices e enciclopédias para resolver os problemas de acróstico duplo.

      A última crítica, desta vez indireta, contém uma novidade: o uso da expressão double acrostics (jogo do acróstico duplo) no sentido figurado, com uma conotação pejorativa. No artigo, publicado no periódico The North American Review (A Revista Norte-Americana) em dezembro de 1900, um articulista cristão criticava a Teoria da Evolução de Charles Darwin e os defensores do Racionalismo.
O sentido figurado da expressão

'Jogo do acróstico duplo' em sentido figurado
      Depois de relatar as contradições e ambigüidades filosófico-religiosas dos três pensadores (Charles Darwin, Stuart Mill e Herbert Spencer), o articulista concluía: "Hesitações, dúvidas e jogos do acróstico duplo como esse sobre as próprias verdades centrais da vida e do dever, naturalmente fizeram com que homens e mulheres sinceras se afastassem enojados".

      Na próxima página, leia sobre o auge da popularidade do acróstico e seu posterior esquecimento.
Referências
Imagem da Appleton's Journal, 5/2/1876, reproduzida com a permissão do site do Projeto Making of America
Imagem da North American Review reproduzida com a permissão do site do Projeto Making of America
Imagem da Putnam's Magazine reproduzida com a permissão do site do Projeto Making of America
Imagem da Southern Literary Messenger reproduzida com a permissão do site do Projeto Making of America
Imagens da Littell's Living Age reproduzidas com a permissão do site do Projeto Making of America
Notes and Queries, George Bell, Londres, 18/5/1867, imagem reproduzida com permissão
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes