História das Palavras Cruzadas

A palavra crossword passa a fazer parte do título de um passatempo diferente do jogo do acróstico duplo.
 
O Primeiro Jogo de "Cross-Word"
Assumindo um lugar de destaque
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      Criada para designar as respostas horizontais do jogo do acróstico duplo, em 1867, a expressão cross words serviu de inspiração para o título de um passatempo bem diferente. Já a partir de abril de 1868, ela podia ser encontrada no jogo do cross-word enigma (enigma de palavra cruzada) publicado na revista The Student and Schoolmate (O Estudante e Colega).

      Na verdade, o jogo do cross-word enigma nada mais era do que uma charada tradicional com outra designação. Veja este exemplo de charada publicado na revista infanto-juvenil Our Boys and Girls (Nossos Meninos e Meninas) de abril de 1871, página 270:
Uma charada

O jogo 'charade'
A resposta do jogo
      Compare o jogo com este exemplo de cross-word enigma (enigma de palavra cruzada) publicado na mesma revista e no mesmo mês, página 268:
Um enigma de palavra cruzada

O jogo 'cross-word enigma'
A resposta do jogo
      E agora compare os dois jogos acima com este exemplo de Enigma publicado na revista St. Nicholas: For Girls and Boys (São Nicolau: Para Meninas e Meninos) em setembro de 1879, página 774:
Um enigma

O jogo 'enigma'
A resposta do jogo
      Mais um: este Riddle (Adivinha) que saiu na revista Children's Magazine (Revista das Crianças) em julho de 1873:
Uma adivinha

O jogo 'riddle'
A resposta do jogo
      Por fim, compare os quatro jogos acima com este Word Puzzle (Jogo de Palavras) publicado na revista The Old Farmer's Almanac (O Antigo Almanaque do Fazendeiro) do ano de 1870:
Um jogo de palavras

O jogo 'word puzzle'
      No primeiro jogo, a charada, estruturalmente idêntica aos outros quatro, temos a definição de uma letra em cada linha ou verso. As pistas são passadas seqüencialmente em forma de comparação ("a letra está nesta palavra, mas não está naquela"), letra a letra, da primeira à última. No verso final, passa-se a dica sobre a resposta como um todo. Assim, my first is in pallet, but not in bed significa "minha primeira letra está na palavra pallet, mas não na palavra bed" (a resposta é "a"). O jogador deveria, por exclusão, decidir qual letra de cada linha pertencia à resposta, com base na definição final do conceito. No caso, my whole is a town in the State of Maine, ou seja "meu todo é o nome de uma cidade no Estado de Maine". Resposta: Augusta.

      Essa forma de passatempo representa uma evolução da charada clássica, jogo criado no século XVIII, o qual passava dicas apenas sobre as sílabas, e não sobre as letras que compunham a resposta. Mais tarde, a forma baseada em letras foi desenvolvida e intitulada, raramente, riddle (adivinha) ou riddle-me-rees (adivinhe-me); com um pouco mais de freqüência, letter enigma (enigma de letras); ou, quase sempre, simplesmente charade (charada). Co-existiu com esse jogo escrito a representação da charada por "atores", precursora do popular jogo de mímica. A charada representada viria a se tornar o mais difundido jogo de salão do final do século XIX.

      Historicamente, a charada escrita desenvolveu-se do enigma, jogo versificado em que uma estrofe ou poema passava dicas sobre um conceito, sem especificar as letras da resposta. O enigma foi criado por volta do século XVI, baseado no jogo da adivinha, podendo mesmo ser considerado simplesmente uma adivinha poética, embora mais elaborada e menos direta que as tradicionais adivinhas em versos. Repare como, em duas das denominações originais (riddle e riddle-me-rees) do jogo que mais tarde seria denominado cross-word enigma, encontra-se presente essa derivação remota do jogo das adivinhas: riddles, em inglês, é a denominação ainda hoje utilizada para as adivinhas.
A primeira utilização da palavra cross-word no título de um passatempo deu-se numa forma de charada denominada letter enigma (enigma de letras), riddle-me-rees (adivinhe-me) ou somente charade (charada), um jogo de palavras derivado do enigma que, por sua vez, derivava da tradicional adivinha.
      Recapitulando: da adivinha surgiu o enigma, uma elaborada adivinha em versos. Do enigma nasceu a charada, adivinha versificada em que se passavam dicas primeiro sobre as sílabas da resposta e depois sobre o conceito definido; da charada clássica desenvolveu-se o riddle (adivinha), riddle-me-rees (adivinhe-me), letter enigma (enigma de letras) ou simplesmente charade (charada), uma charada que passava dicas primeiro sobre as letras da resposta e depois sobre o conceito definido. E esse último jogo passou a ser designado, por volta de 1868, como cross-word enigma (enigma de palavra cruzada), até agora a mais remota ocorrência já descoberta da palavra cross-word no título de um passatempo. E também, mais raramente, esse jogo foi intitulado simplesmente enigma.

       A escolha da palavra cross-word nesse contexto é ao mesmo tempo curiosa e sintomática. Curiosa porque existe apenas uma leve impressão de cruzamento de palavras no jogo: a resposta compõe-se de uma letra de cada uma das linhas horizontais, formando uma palavra vertical situada no interior dessas linhas. E sintomática porque seu desconhecido autor (uma constante na história das palavras cruzadas) estava, na verdade, prenunciando uma tendência que se manifestaria marcantemente nas décadas seguintes entre os enigmistas norte-americanos: a busca do cruzamento de palavras como um meio de trazer novidade e um grau maior de complexidade aos jogos de palavras.

      É muito provável que a escolha do nome tenha sido influenciada pela palavra cross-words utilizada no jogo do acróstico duplo, desde 1867, para designar as respostas horizontais. Entretanto, existe uma diferença fundamental no sentido de cross, nos dois termos homônimos. O anônimo enigmista que primeiro aplicou essa palavra para designar o passatempo cross-word enigma pensou no adjetivo cross (cruzada) com a acepção de "em forma de cruz", "transversal", expressando nitidamente a idéia de interseção. A palavra vertical da solução formaria uma espécie de cruz com as linhas horizontais das definições. No caso da utilização da palavra cross-words para designar as respostas horizontais, no jogo do acróstico duplo, o sentido dominante de "cruzar" era o de "atravessar", "fazer uma ponte entre" os acrósticos.

      Qualquer que fosse o motivo da escolha, o nome "pegou". E o cross-word enigma foi um dos passatempos de vida mais longa no período anterior às cruzadas modernas, provavelmente por ser simples e fácil de fazer. Servia como uma contrapartida aos outros jogos de palavras, cada vez mais complexos em forma e difíceis em conteúdo. A dificuldade da forma devia-se ao objetivo que os enigmistas se impunham de superar desafios; a dificuldade do conteúdo derivava da integração dos passatempos ao propósito altamente cultural que caracterizava as revistas e tablóides infanto-juvenis norte-americanos do final do século XIX. O maior símbolo dessa orientação cultural foi a revista St. Nicholas: For Girls and Boys (São Nicolau: Para Meninas e Meninos), lançada em novembro de 1873.

      Nas páginas a seguir você terá uma amostra de como a palavra cross-word era popular, por meio de imagens escaneadas de jogos de cross-word enigma publicados em todas aquelas décadas, a partir de 1871 até dezembro de 1913, mês oficialmente considerado como o do início do cruzadismo.

      Se quiser conhecer um pouco mais sobre a história das adivinhas, clique aqui; sobre a história dos enigmas, clique aqui; e sobre a história das charadas, clique aqui.

      Na próxima página, aprecie os mais antigos jogos de cross-word enigma (enigma de palavra cruzada) até hoje descobertos, no volume da revista The Student and Schoolmate (O Estudante e o Colega) relativo ao ano de 1868.
Referências
Children's Magazine, E. P. Dutton & CO., Nova Iorque, julho de 1873
Our Boys and Girls, Oliver Optic, Lee and Shepard (Publishers), Boston, 1871
St. Nicholas: For Girls and Boys, Scribner & Co., Nova Iorque, nov. 1878 - out. 1879
The Old Farmer's Almanac, Robert B. Thomas, Brewer & Tileston, Boston, 1870
The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes