História das Palavras Cruzadas

O passatempo em versos que evoluiu das adivinhas e que iria gerar as charadas, a sensação dos elegantes salões noturnos no século XIX.
 
História dos Enigmas
O que é, o que é: uma adivinha enfeitada e amigável?
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      Historicamente, a primeira evolução da adivinha foi a passagem da prosa para a poesia, na formulação do desafio. Provavelmente essa passagem para a forma em versos começou com o uso do dístico (poemeto de dois versos), uma conseqüência lógica do estilo curto das adivinhas em prosa e de seu conteúdo, geralmente centrado numa contradição. No livro The Oxford Guide to Word Games (O Guia Oxford para os Jogos de Palavras), Tony Augarde apresenta a adivinha proposta por Sansão como um dístico:
"Out of the eater came something to eat;
Out of the strong came something sweet."
      A tradução: "Daquele que come saiu algo para comer / Do forte saiu algo suave (duplo sentido: doce)". Um exemplo moderno de adivinha popular rimada:
"O que é, o que é: corre sem ter pés; não tem dedos, mas tem anéis?"
Resposta.
      Do dístico, a adivinha rimada evoluiu para estrofes mais compridas, algumas das quais já foram mostradas nesta página. Na Idade Média, eram comuns as adivinhas com mais de 10 versos. Entretanto, a forma poética servia meramente para introduzir dois novos atrativos formais (a métrica e a rima) ao passatempo, e um pouco mais de conteúdo ao desafio, não havendo nenhuma intenção de criar uma peça literariamente bonita ou artisticamente relevante.

      Coexistindo, ao longo desse tempo, com a forma em prosa, a forma poética também só continha dicas sobre o conceito que o solucionador deveria descobrir, sem referir-se à palavra e às suas partes (sílabas ou letras), como viria a ocorrer com a charada.

      A partir do século XVI, os poetas-enigmistas passaram a cuidar mais da forma de suas criações, aperfeiçoando a rima, a métrica e as imagens poéticas. Essa forma de adivinha poeticamente elaborada acabou sendo designada de "enigma". Curiosamente, a etimologia da palavra, criada no século XV, prenunciava a relação que mais tarde se formaria entre adivinha e enigma. Esta informação constava do antigo serviço de lista de correio Cool Word of the Day (A Palavra Maneira do Dia), edição de 28 de agosto de 2000:
            Enigma, an English word since the 15th century, comes from the
            Latin aenigma.  This was derived from the Greek ainigma, from the
            Greek ainissesthai (to speak in riddles).  Ainissesthai was a variant
            of ainos (fable).
      "Enigma, uma palavra inglesa desde o século XV, vem do latim 'aenigma'. Essa, por sua vez, deriva do grego 'ainigma', pelo grego 'ainissesthai' (falar por meio de adivinhas). "Ainissesthai" era uma variante de 'ainos' (fábula)".

      Do ponto de vista dos criadores, a evolução da adivinha para o enigma está bem esclarecida: um aperfeiçoamento formal associado a um desenvolvimento maior do conteúdo ¾ tendências óbvias quando se parte de uma forma pobre e sintética. Falta, porém, abordar o lado dos solucionadores.

      Ninguém se sente obrigado a acertar a resposta de uma adivinha. Nesse ponto, trata-se de um jogo de palavras único. A graça está em ouvir a solução imprevista e engraçada, e depois em contar a mesma adivinha para outras pessoas. Isso porque todos os truques são permitidos a quem propõe o desafio: duplo sentido, metáfora, contradição, criação de um contexto fantasioso, o absurdo ¾ ou até mesmo a ausência de truques, como na famosa "adivinha da galinha". Mais: pode-se até mesmo criar uma nova resposta para uma adivinha batida, visando surpreender aqueles que pensam saber a solução:
"O que é, o que é: cai em pé e corre deitada?"
Resposta tradicional.
"O que é, o que é: cai em pé e corre deitada?"
Resposta modificada.
      O ponto-chave da dificuldade é que, ao ouvir uma adivinha, o desafiado nunca sabe que truque está sendo usado naquela pergunta específica, ficando à mercê de um palpite feliz para encontrar a resposta, ou da memória, caso já tenha ouvido a adivinha.

      Essa situação de inferioridade no conhecimento e de impossibilidade de chegar à resposta deve ter gerado insatisfação em muitos desafiados, no tempo em que somente as adivinhas existiam entre os jogos de palavras. E alguns criadores mais sensíveis devem ter entendido que evoluir o passatempo para uma forma esteticamente mais agradável e para um conteúdo mais amigável viria ao encontro dos desejos dos solucionadores.

      Assim surgiu o enigma, um passatempo que trazia alguma esperança de sucesso para quem se dedicasse a resolvê-lo. Para isso, foi necessário impor uma restrição ao número de truques utilizados pelo criador: apenas uma metáfora bem desenvolvida (em vez de várias), contradições aparentes, duplo sentido ¾ essas eram as formas de despistamento mais utilizadas. De posse desse conhecimento, o desafiado sentia ter alguma chance de chegar à solução.

      Quanto à forma, o enigma era sempre apresentado em estrofes com vários versos (nunca em dísticos, como as adivinhas).

      Devido à sua proximidade histórica e à semelhança formal com as adivinhas em versos, torna-se difícil identificar a época exata do surgimento do enigma. Alguns jogos chamados de "adivinhas" em seu tempo hoje podem ser qualificados como "enigmas". Um desses exemplos é a "adivinha do alfabeto" criada pelo bispo inglês Aldhelm (c. 639 - 709). Composta em latim, tem o seguinte texto:
                   Nos denae et septem genitae sine voce sorores,
                   Sex alias nothas non dicimus adnumerandas,
                   Nascimur ex ferro rursus ferro rnoribundae,
                   Necnon et volucris penna volitantis ad aethram;
                   Terni nos fratres incerta matre crearunt;
                   Qui cupit instanter sitiens audire, docemus,
                   Tum cite prompta damus rogitanti verba silenter. 

                                      Tradução

                 Somos dezessete irmãs nascidas sem voz,
                 Seis outras, meio-irmãs, excluímos do nosso grupo,
                 Filhas do ferro, pelo ferro morremos,
                 Mas também filhas da asa do pássaro que voa tão alto;
                 Três irmãos (são) nossos pais, seja nossa mãe a que for;
                 Se alguém está muito ansioso para ouvir, dizemos a ele,
                 E rapidamente damos a resposta sem nenhum som.
      A adivinha refere-se às 17 consoantes e 6 vogais, que podiam ser escritas num papel com instrumento metálico ou com uma pena, usando-se os três dedos da mão, e que serviriam para dar uma resposta em situações nas quais não se pudesse falar.

      O arcebispo de Canterbury, Tatwin, falecido em 734, e São Bonifácio, falecido em 755, foram outros cultores de adivinhas em versos, jogos que passariam por enigmas atualmente.

      Na próxima página, acompanhe a evolução do enigma a partir do século XVI.
Referências
Aldhelm and his School, The Cambridge History of English and American Literature, Projeto Bartleby
Artigo Riddles, da revista "The Cornhill Magazine", julho de 1891
"Enciclopédia Mirador Internacional", Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda, 1977
The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes