História das Palavras Cruzadas

A descoberta que mudou a história das palavras cruzadas.

 

O Ancestral dos Jogos de Cruzamento de Palavras
Um fato conhecido somente pelos arqueólogos
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       A mais antiga ocorrência já registrada de cruzamento de signos lingüísticos verificou-se em textos que contêm um acróstico, seqüência vertical de letras que formam um sentido completo quando lidas de cima para baixo. A invenção do acróstico deve-se aos antigos egípcios, por volta de 1900 a.C., segundo informações constantes em vários estudos arqueológicos dos papiros encontrados naquele país. Esses textos eram compostos de hieróglifos, símbolos que constituíam a antiga escrita egípcia. Como os hieróglifos eram lidos da direita para a esquerda, ao contrário da escrita ocidental, o escriba compunha o acróstico na coluna de símbolos situada na extremidade direita do texto.

       Nas outras escritas, a época da introdução do acróstico não se encontra bem estabelecida, devido à dificuldade de datação de vários textos da Bíblia ¾ os mais antigos acrósticos fazem parte do "Antigo Testamento", escrito em hebraico. Sabe-se, entretanto, que a data não deve ser posterior a 1000 a.C., situando-se mais seguramente dois ou três séculos aquém daquele ano histórico.

       Diz a história oficial das palavras cruzadas que a prática de cruzamento de palavras teria evoluído dos acrósticos em textos literários para os jogos apenas em 1762, com a criação do jogo ou charada de acróstico, e que somente na segunda década do século XX essa evolução teria chegado aos diagramas que hoje conhecemos, nos quais uma grade ou esquema engloba as palavras horizontais e verticais que cruzam em seu interior.

       Em 1966, a publicação de um livro de Arqueologia permitiu o acesso a informações científicas que contam uma história bem diferente. Apesar disso, trata-se de uma obra que, ainda hoje, poucas pessoas conhecem, por estar fora de catálogo, e a maioria das fontes de consulta, entre elas a prestigiosa Encyclopaedia Britannica, não menciona. E que remonta a criação da prática lúdica de cruzamento de palavras e, acredite, do próprio jogo de palavras cruzadas, numa forma "primitiva", ao ... Antigo Egito.

      O texto de 66 páginas foi escrito pelo arqueólogo holandês Jan Zandee, autor de vários outros livros sobre civilizações antigas. Uma autoridade na área, o professor Zandee já recebeu homenagens de colegas em obras a ele dedicadas. O título do livro histórico é An Ancient Egyptian Crossword Puzzle: an Inscription of Neb-wenenef from Thebes (Um Problema de Palavras Cruzadas do Antigo Egito: Uma Inscrição de Neb-wenenef, de Tebas). A inscrição refere-se a um cruzamento de hieróglifos gravado numa estela do tempo do faraó Ramsés II, que reinou no Egito entre cerca de 1300 a.C. e 1230 a.C. (os anos variam conforme os historiadores).
Ramsés II é o faraó cujo reinado de mais de 60 anos foi romanceado pelo egiptólogo Christian Jacq na série de cinco best-sellers iniciada com "Ramsés, o Filho da Luz" e continuada com "O Templo de Milhões de Anos", "A Batalha de Kadesh", "A Dama de Abou Simbel" e "Sob a Acácia do Ocidente".
Imagem do faraó Ramsés II

Imagem do faraó Ramsés II
      A estela foi encontrada no túmulo de número 157 da cidade de Tebas. A tumba pertencia ao sumo sacerdote Neb-wenenef, que fora escolhido para aquela função, entre outros candidatos de destaque, num ritual realizado durante o primeiro ano do reinado de Ramsés II, faraó da XIX dinastia (1320 - 1200 a.C.). A cerimônia está descrita logo à entrada do túmulo. Exatamente 11 anos após essa instalação no cargo, Neb-wenenef viria a falecer (cerca de 1290 a.C.). No lado esquerdo do corredor que dá acesso à câmara interna do túmulo, encontrou-se a estela, uma grande pedra na qual foram gravadas imagens humanas e uma série de hieróglifos.

      Não há nada de especial no texto da estela: uma seqüência de frases elogiosas sobre o deus Osíris, protetor dos mortos, o que constituía uma praxe naqueles tempos. Mas a forma na qual os hieróglifos foram dispostos surpreendeu os arqueólogos. São ao todo 11 linhas horizontais. Bem no centro delas, uma coluna foi marcada para indicar que os hieróglifos, lidos no sentido vertical, também fazem sentido. Ou seja, as linhas da coluna delimitam uma frase completa para ser lida de cima para baixo, formada por alguns dos símbolos das outras frases gravadas no sentido horizontal.

      Estava descoberta a mais antiga ocorrência de um cruzamento de hieróglifos numa estela, até então. O ano de 1290 a.C. passava a ser considerado o ponto histórico inicial dessa prática. No caso específico da estela de Neb-wenenef, tratava-se de um acróstico central, ou seja, aquele em que o nome ou a frase no sentido vertical encontra-se no centro das palavras ou frases dispostas no sentido horizontal.
Gigantesca estátua do faraó Ramsés II esculpida no Vale dos Reis. Nessa região foram construídos os túmulos de todos os faraós da XVIII à XX dinastias, dos quais 64 já foram descobertos, a maioria deles saqueados ¾ o que geralmente acontecia poucos anos após o sepultamento do faraó.
Estátua do faraó Ramsés II

Estátua do faraó Ramsés II
      Como explica o professor Jan Zandee no capítulo The Technique of the Crossword Puzzle (A Técnica do Problema de Palavras Cruzadas), a escrita hieroglífica, assim como a nossa, permitia a leitura tanto no sentido horizontal quanto no vertical. A imagem abaixo mostra um papiro do segundo milênio, em que foi utilizado apenas o sentido vertical de leitura.
Papiro funerário de Khay

Papiro funerário de khay
       É fato quase desconhecido do grande público que o uso simultâneo dos dois sentidos ocorreu de forma freqüente em inscrições do Antigo Egito. A própria estela de Neb-wenenef qualificava-se naquele momento (1966) como o exemplar mais remoto já divulgado em obras científicas. Entretanto, como veremos mais adiante, ela não foi o primeiro exemplo da prática de cruzamento de hieróglifos em estelas. Antes mesmo da época de Neb-wenenef as inscrições tinham evoluído a ponto de tomar a aparência de um legítimo diagrama ou de uma grade de palavras cruzadas, semelhante às produzidas pelos criadores modernos.

      Uma curiosidade: até há pouco tempo, a única fonte on-line que mencionava por alto essa descoberta era a Infoplease, com base no texto da Columbia Encyclopedia. O trecho em questão:
Though a type of crossword puzzle has been found inscribed on an ancient tomb in Egypt, journalist Arthur Wynne is generally credited with its invention in 1913 (Embora um tipo de palavras cruzadas tenha sido encontrado numa inscrição de um antigo túmulo no Egito, o jornalista Arthur Wynne é geralmente apontado como seu inventor, em 1913).
      Em 2002, um site sueco de palavras cruzadas (Webbkryss, em http://www.webbkryss.nu/kuriosa/default.asp) ofereceu uma breve história do passatempo mencionando o livro do professor Zandee e seu conteúdo, embora a ilustração da estela não correspondesse ao objeto real.

      E, como também ficará provado a seguir, essas informações dadas de passagem pela Infoplease e pelo site sueco não fazem jus à importância que têm os antigos egípcios na história dos jogos de cruzamento de palavras.

      O livro do professor Zandee também é mencionado em sites que reproduzem trabalhos científicos sobre o Egito, como este.

      Na próxima página, aprecie a imagem inédita da estela egípcia.
Referências
An Ancient Egyptian Crossword Puzzle, Jan Zandee, Ex Oriente Lux, Leiden, 1966
Columbia Encyclopedia, Quinta Edição, Columbia University Press, 1993
Cracking Codes, Richard Parkinson, University of California Press, Los Angeles, 1999
Dictionary of Ancient Egypt, de Ancient Egyptian Lives
Near Eastern Acrostics And Biblical Acrostics: Biblical Acrostics And Their Relationship To Other Ancient Near Eastern Acrostics, John F. Brug, 1987 (em arquivo PDF)
Site da Encyclopaedia Britannica
Site da Infoplease
Site do Theban Mapping Project
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice | Ancestrais | As "Cruzadas" Egípcias

Autor: Sérgio Barcellos Ximenes