| História das Palavras Cruzadas |
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Síntese dos elementos de uma cruzada moderna que já estavam presentes na "cruzada" egípcia de hieróglifos. |
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Esqueceram de Mim
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Das cinco evidências atualmente conhecidas da prática de cruzamento de hieróglifos em estelas, duas tinham uma destinação funerária: a estela de Neb-wenenef, com seu acróstico central (cerca de 1290 a.C.) e a misteriosa estela da tumba de Kheruef, com seu jogo completo de cruzamento de hieróglifos (cerca de 1350 a.C.). A estela de Paser, criada por volta de 1140 a.C., era assumidamente um jogo de caráter social. As duas outras estelas, cuja datação situa-se entre 1085 e 820 a.C., não tiveram a função especificada nos artigos em que foram descritas. Uma delas contém a grade e a outra apresenta vários acrósticos.
Apesar disso, pode-se fazer uma afirmação sobre a natureza do trabalho que levou à criação das cinco estelas, sem receio de errar: em todas elas, o elemento lúdico e a função social estavam presentes. Nenhuma espécie de motivação religiosa justificaria a inclusão de acrósticos ou do cruzamento total de hieróglifos numa estela. A homenagem aos deuses ou ao falecido não ficaria prejudicada se o trabalho fosse realizado da maneira tradicional. Torna-se claro que o desafio intelectual representado pela tarefa, numa cultura que tinha por costume brincar com as palavras, como explicou o professor Stewart, foi um elemento decisivo na criação desses exemplares ¾ além da intenção de ver esse trabalho reconhecido por terceiros, no momento da leitura. Sabe-se que os antigos egípcios tinham uma noção bem concreta da vida futura, tanto em relação a este quanto a um possível outro mundo. As pirâmides, um dos mais belos legados à posteridade, servem como evidência no primeiro caso; as oferendas e objetos deixados junto das múmias (às vezes, até mesmo pessoas vivas) demonstram sua relação concreta com o mundo espiritual. Mesmo as estelas deixadas nos sarcófagos expressavam uma esperança ou certeza de que alguém, algum dia, em algum lugar, iria descobri-las e ler seu conteúdo. E se maravilhar com o feito dos escribas. Não foi exatamente isso que aconteceu? Curiosamente, de todos os elementos que compõem uma cruzada moderna, cinco fizeram sua estréia no Antigo Egito, na forma de inscrições hieroglíficas gravadas em estelas. A saber:
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| Os dois únicos elementos criativos ausentes na "cruzada" egípcia, em relação à cruzada moderna, eram a definição dos conceitos e a presença de casas "mortas" ou fechadas (aquelas que ficam situadas dentro da grade, mas que não contêm nenhum elemento da resposta). Entretanto, devido ao grau de habilidade demonstrado pelo escriba nos cruzamentos da estela de Paser, esse último fator não seria sequer necessário. |
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Tecnicamente falando, o exemplo mais impressionante dessas inscrições, a estela de Paser é um quadrado de palavras duplo: uma disposição de letras em quadrado, na qual as palavras horizontais são diferentes das verticais e todas as palavras cruzam entre si. Na seção sobre os quadrados de palavras, você verá que o mais complexo exemplar desse jogo já criado com o nosso alfabeto tem 9 palavras de 9 letras cada uma (um quadrado 9 x 9). A estela de Paser é um quadrado ... 80 x 80. E ela não apresenta apenas uma palavra por linha, e sim uma extensa frase que ocupa até 5 linhas de tamanho normal, quando traduzida. Palavra de alguns dos mais renomados arqueólogos e estudiosos da antiga cultura egípcia.
Existem jogos modernos de palavras cruzadas que contêm até 2700 definições e que são vendidos em grandes caixas, às vezes em forma de quebra-cabeças para montar. Entretanto, tecnicamente esses jogos não passam de um conjunto de cruzadas menores unidas por certas palavras maiores que fazem a ligação entre as várias partes do grande diagrama. Nem de longe se comparam, em complexidade, ao trabalho exigido na montagem da estela de Paser, que é, com justiça, o mais complexo jogo de cruzamento de palavras já criado por um ser humano. É surpreendente verificar, em face desses dados, que bastaria incluir na lista de características acima apenas uma outra (a definição dos conceitos, que introduz o elemento de decifração) para que todos os elementos de uma cruzada moderna estivessem presentes já no Antigo Egito ¾ ou seja, mais de 3200 anos antes do momento oficial de criação das palavras cruzadas, em 21 de dezembro de 1913. Isso mesmo, mais de 3 milênios antes, já que Akhenaton reinou de 1372 a.C a 1354 a.C. Essa datação histórica leva a um outro motivo de admiração da engenhosidade dos antigos egípcios. Na cultura ocidental moderna, o período total de evolução da prática de cruzamento de signos lingüísticos, desde o acróstico literário até a criação das palavras cruzadas, durou cerca de 2700 anos. Os primeiros acrósticos literários constam dos textos bíblicos do Antigo Testamento e são datados de cerca de 900 a.C.; o primeiro jogo de cruzamento de palavras (o jogo ou charada de acróstico) data do ano de 1762. Na cultura egípcia antiga, essa evolução se processou em pouco menos de 600 anos, de cerca de 1900 a.C. a 1350 a.C. |
| O salto intelectual necessário para a passagem dos acrósticos literários aos jogos de cruzamento de signos lingüísticos demorou cerca de 2700 anos para se manifestar, na cultura moderna. No Antigo Egito, o hiato foi de apenas 600 anos. |
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O feito dos egípcios torna-se ainda mais admirável quando se comparam as circunstâncias culturais de cada período histórico. Nos 600 anos que a "cruzada" de hieróglifos demorou para se desenvolver, praticamente não existiam textos em circulação: jornais, revistas, livros e mesmo panfletos ainda não haviam sido criados. Além disso, pouquíssimas pessoas tinham o domínio da escrita. Mais: a evolução se processou dentro de uma só cultura. Enquanto isso, nos 2700 anos que a cruzada moderna demorou para se desenvolver, os textos escritos eram comuns, especialmente a partir do advento da imprensa, em meados do século XV. Muitas pessoas sabiam ler e escrever, e dezenas de culturas tiveram a oportunidade de conhecer os acrósticos e de criar poemas usando esse recurso estético.
Uma análise mais detalhada torna a comparação quase humilhante. Um jogo semelhante ao da "cruzada" de hieróglifos do tempo de Akhenaton só foi criado em 1871: um quadrado palavras duplo no qual 4 palavras horizontais cruzavam com 4 palavras verticais. |
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T E R M A L O E P L A T S A M E |
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Ou seja, a evolução foi ainda mais demorada: de cerca de 900 a.C. a 1871. Mas, como vimos acima, a estela de Paser, datada de 1140 a.C., apresenta um quadrado de palavras duplo com 80 frases horizontais e 80 frases verticais. De quebra, inclui mais um sentido, o da leitura pelas extremidades. E os criadores modernos de jogos de palavras ainda não passaram do quadrado duplo com 8 palavras de 8 letras. Se quiser apreciar uma comparação visual entre as duas criações, clique aqui.
Algum dia chegaremos lá, onde os egípcios estavam em 1140 a.C.? |
| A capa mostrada abaixo pertence a um livro de palavras cruzadas publicado em 1970, contendo jogos do jornal The New York Herald Tribune. Um ano antes, portanto, da publicação do artigo sobre a estela de Paser. O capista certamente não tinha conhecimento dos antigos exemplares egípcios, mas acertou em quase todos os elementos hoje conhecidos daquelas criações. |
Concepção artística da cruzada egípcia
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| Na próxima página, leia sobre as prováveis causas do abandono da prática de cruzamento de hieróglifos. |
| Referências |
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A Crossword Hymn to Mut, H. M. Stewart, The Journal of Egyptian Archaeology, Volume 57, agosto de 1971 An Ancient Egyptian Crossword Puzzle, Jan Zandee, Ex Oriente Lux, Leiden, 1966 |
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice
| Ancestrais | As "Cruzadas" Egípcias
Autor: Sérgio Barcellos Ximenes
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