História das Palavras Cruzadas

Um resumo das informações apresentadas nas seções sobre o Disco de Festos e as "cruzadas" egípcias.

 

O Que Sabemos Até Aqui - 1
O Disco de Festos e as "cruzadas" egípcias
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  • O Disco de Festos, encontrado na ilha grega de Creta em 1908 e datado de 1700 a.C., não era um jogo de cruzamento de palavras ou signos lingüísticos. Suas 242 figuras impressas numa base circular de terracota constituem, ainda hoje, um mistério para os arqueólogos: não existe um consenso a respeito do significado dos símbolos e da função do objeto. O Disco de Festos é, sim, o mais antigo enigma lingüístico da Humanidade.

  • Os antigos egípcios foram o primeiro povo a praticar o cruzamento de signos lingüísticos, por volta do final do segundo milênio antes de Cristo. Inicialmente, essa prática se deu em textos escritos em papiros, na forma de um acróstico composto pelos sinais situados na última coluna à direita, devido ao sentido de leitura dos hieróglifos (da direita para a esquerda). Em menos de 600 anos, a prática evoluiu dos textos para os monumentos, e de um mero enfeite literário para um autêntico jogo de palavras, com objetivo lúdico. Comparando: na escrita ocidental, essa evolução demorou cerca de 2700 anos, dos acrósticos bíblicos ao primeiro jogo de cruzamento de palavras, criado em 1762.

  • Os escribas egípcios adquiriram uma notável perícia no cruzamento dos signos, criando estelas que apresentavam várias colunas de hieróglifos cruzando com as linhas horizontais, e até mesmo jogos em que todas as linhas de hieróglifos cruzavam com todas as colunas, num diagrama muito semelhante ao das cruzadas atuais. Assim como essas, aquelas estelas tinham os símbolos gravados em casas quadradas que formavam, no conjunto, uma grade abrangendo todo o jogo. Também nesse aspecto (o de um jogo completo de cruzamento de signos lingüísticos), os antigos egípcios foram os pioneiros.

  • A misteriosa estela mencionada no artigo A Crossword Hymn to Mut (Um Hino de Palavras Cruzadas para Mut), do professor Stewart (1971), contém o mais antigo jogo de cruzamento de signos lingüísticos já descoberto. Criada no Antigo Egito por volta de 1350 a.C., no final do reinado do faraó Akhenaton (XVIII dinastia, 1567 - 1320 a.C.), foi encontrada na tumba de Kheruef, intendente da esposa do faraó. Teria sido o tema central de um artigo escrito pelo arqueólogo Charles Frances Nims na década de 70 do século passado. A estela contém uma grade de tamanho não especificado, dentro da qual ocorrem cruzamentos verticais e horizontais abrangendo todos os hieróglifos.

  • Existem outros dois exemplares de estelas egípcias contendo essa grade e o cruzamento total de hieróglifos, nos sentidos horizontal e vertical: a estela de Paser, criada por volta de 1140 a.C. (XX dinastia, 1200 - 1085 a.C.) e encontrada quase completa; e uma estela da XXI dinastia (1085 - 950 a.C.) ou da XXII dinastia (950 a.C. - 820 a.C.), que não teve o nome e o tamanho da grade revelados no artigo em que foi mencionada.

  • A estela de Neb-wenenef contém a mais antiga ocorrência de cruzamento de signos lingüísticos num monumento até hoje mostrada ao público. Ela é datada de cerca de 1290 a.C., época do reinado de Ramsés II (1300 - 1230 a.C.), faraó da XIX dinastia (1320 - 1200 a.C.). Tecnicamente, corresponde a um acróstico central, criação lingüística em que uma palavra, nome ou frase pode ser lida verticalmente, no centro de várias linhas de palavras ou frases.

  • O mais complexo jogo de cruzamento de palavras (usando hieróglifos) criado na Antigüidade é aquele encontrado na chamada Crossword Stela of Paser (Estela de Paser com Palavras Cruzadas), atualmente exposta no Museu Britânico, em Londres, e criada entre 1141 a.C. e 1133 a.C., no reinado do faraó Ramsés VI (XX dinastia). Na estela, descoberta em 1817, foi gravada uma grade de traços horizontais e verticais contendo 80 linhas e 80 colunas. Dentro de cada uma dessas 6400 casas ou quadradinhos foram desenhados hieróglifos. Todas as linhas e colunas de hieróglifos cruzam entre si, formando 160 frases de sentido inteligível.

  • A existência de três estelas com uma grade envolvendo todos os hieróglifos, datadas de 1350 a.C. a 950 a.C. ou 820 a.C., comprova que a idéia de cruzar signos lingüísticos com objetivos lúdicos foi uma criação dos antigos egípcios. Embora duas dessas estelas (a de Neb-wenenef e de Kheruef) tenham sido encontradas em túmulos, não existe justificativa religiosa para a imposição do trabalho extra ao escriba, necessário para produzir o cruzamento de todos os hieróglifos. Os arqueólogos afirmam que essa prática deve ser entendida dentro do contexto lúdico que caracterizou a relação dos egípcios com a escrita.

  • A "cruzada" egípcia apresentava cinco elementos característicos da cruzada moderna: a grade que limita o conteúdo do passatempo; o cruzamento de signos lingüísticos; a dificuldade técnica de construção do jogo; o "cruzadês" (vocabulário típico do passatempo); e uma designação especial para o jogo. Um sexto elemento pode ser acrescentado: a estrutura da "cruzada" egípcia guarda uma impressionante semelhança com certos jogos atualmente publicados em revistas de palavras cruzadas. Abaixo da série de figuras que explicitavam o motivo do trabalho (uma espécie de título) vinha uma linha de hieróglifos explicando como o enigma proposto pelo criador deveria ser resolvido (no caso, os sentidos de leitura do texto). Abaixo dessa linha aparecia a grade contendo todos os signos lingüísticos cruzando entre si.

  • Apenas dois elementos adicionais bastariam para que a "cruzada" egípcia fosse idêntica à moderna: as definições e as casas "mortas" (sem letras ou signos da resposta) no interior da grade. Mas, como os egípcios conseguiam cruzar 80 frases horizontais com 80 frases verticais, as casas "mortas", com seu caráter de "muleta" para o criador, se tornariam desnecessárias. Portanto, faltaram apenas as definições para que as palavras cruzadas tivessem surgido, como são atualmente, em meados do século XIV a.C.

  • A existência dessas estelas parece provar que uma modalidade de palavras cruzadas foi o segundo jogo de palavras criado pelo ser humano, perdendo em antigüidade apenas para as adivinhas. Entre os jogos de palavras que necessitam de uma base para serem criados, a "cruzada" egípcia ocupa o primeiro lugar na História.

  • Longe de se constituir numa modalidade "primitiva", a "cruzada" egípcia mostra-se tecnicamente superior aos diagramas criados pelos cruzadistas modernos, que só conseguiram produzir um jogo totalmente aberto (sem casas "mortas") com 9 palavras horizontais e 9 verticais, enquanto a estela de Paser era constituída de 80 frases horizontais e outras 80 verticais. Além disso, o criador dessa estela instituiu um terceiro sentido de leitura para o mesmo texto, utilizando os hieróglifos das quatro extremidades, enquanto raros criadores modernos conseguem usar uma das primeiras colunas e a última linha de letras (portanto, apenas duas faixas do diagrama) para inserir uma resposta contínua.

  • Essa perícia pode ser explicada (embora apenas em parte) pela duração da prática de cruzamento de hieróglifos no Antigo Egito: de 400 a 500 anos, quatro a cinco vezes superior ao tempo que se passou, na Era Moderna, da criação das palavras cruzadas, em 1913, até o presente.

  • O egípcio Paser merece uma citação especial, por ter sido o criador do mais complexo jogo de cruzamento de signos lingüísticos até hoje conhecido (a estela de Paser). Com justiça, ele pode ser considerado o maior criador de jogos de palavras de toda a História, do ponto de vista técnico. O contexto cultural em que viveu ¾ extremamente pobre em termos lingüísticos, comparado com o atual ¾ torna seu feito ainda mais admirável.

  • Cabem aos antigos egípcios, portanto, estes feitos:

    1. A criação do acróstico.
    2. O pioneirismo no uso lúdico dos cruzamentos de signos lingüísticos.
    3. A criação do primeiro jogo em que todas as palavras horizontais cruzavam com as palavras verticais, sendo estas diferentes daquelas ¾ literalmente, o primeiro jogo de palavras cruzadas.
    4. Um grau de desenvolvimento ainda hoje insuperável na técnica do cruzamento de signos lingüísticos.
    5. O emprego mais demorado do cruzamento de signos lingüísticos, em jogos, entre todos os povos da História: de 4 a 5 séculos contínuos.
    6. O mérito de terem gerado o maior enigmista da História, nessa área: Paser.

       Na próxima página, leia sobre as estelas gregas e sua curiosa forma de distribuição de palavras que se assemelhava (e não mais que isso) à "cruzada" egípcia.

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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes