História das Palavras Cruzadas

Os jovens enigmistas começam a se organizar, incentivados pelos editores das seções de jogos de palavras.
 
Tios Severos, Primos Empreendedores
Unidos jogaremos
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      Nas páginas anteriores, abordamos os dois primeiros fatores ou motivos que explicam por que os jogos de cruzamento de palavras desenvolveram-se nos Estados Unidos, entre as crianças e os jovens daquele país: o "boom" da literatura infanto-juvenil norte-americana durante todo o século XIX, centrada especialmente em revistas e tablóides, e a impressionante difusão das seções de jogos de palavras, a partir de meados do século XIX, tanto naquelas publicações quanto nos jornais e revistas destinados ao público adulto ¾ nesse caso, nas colunas, seções ou cadernos lidos pelos mais jovens.

      O terceiro motivo foi o incentivo à participação criativa das crianças e jovens, por parte dos editores das seções de jogos de palavras. É provável, mesmo, que essa participação se constitua num caso único na História, não registrado em nenhum outro país durante aquele século, em qualquer área de atividade. E talvez, como veremos, nem mesmo no século seguinte, incluindo-se nessa avaliação a Era da Internet.

      As revistas e tablóides infanto-juvenis norte-americanos daquela época traziam, além da seção de jogos de palavras, uma seção de chat (bate-papo) assinada pelo editor dos jogos ou por outro profissional, que se destinava ao diálogo com as crianças e os adolescentes.

      Eis uma breve lista desses departamentos de bate-papo, precedidas dos títulos das publicações:
Seções de "Chat" com os Leitores

Children's Magazine (Our Letter-Box)
Frank Leslie's Boys' & Girls' Weekly (Our Letter Box)
Golden Days For Boys and Girls (Palaver)
Harper's Young People (Our Post-Office Box)
Our Boys and Girls (Our Letter Bag)
Robert Merry's Museum (Merry's Monthly Chat with His
    Friends)
St. Nicholas: For Girls and Boys (The Letter-Box)
The Little Corporal (Prudy's Pocket)
The Student and Schoolmate (Our Desk)
Woodworth's Youth's Cabinet (Uncle Frank's Monthly
    Table-Talk)
Young Folks' Circle (Our Letter Box)
Youth's Casket and Playmate (Chat with Readers and
    Correspondents)
      Historicamente, essa atração das revistas e tablóides infanto-juvenis teve origem na Parley's Magazine (Revista de Parley), que circulou entre 1833 e 1844. Começou timidamente, com a publicação intermitente de cartas de leitores. A experiência se desenvolveu a partir da publicação da revista Robert Merry's Museum (O Museu de Robert Merry), em 1841. Inicialmente o editor Samuel Goodrich criou uma seção onde publicava e comentava a correspondência, além de oferecer ocasionais jogos de palavras aos jovens leitores. Em 1848, a seção de chat individualizou-se, passando a ser denominada de Merry's Monthly Chat with his Friends (Bate-Papo Mensal de Merry com seus Amigos).

      Samuel Goodrich era um escritor profissional que havia criado um personagem já famoso entre os jovens, Peter Parley, um homem viajado que tinha uma perna de pau e que adorava contar histórias de suas aventuras. O personagem "Robert Merry", criado para conduzir a coluna de bate-papo, acabou assumindo a mesma aura de mistério e encantamento associada a Peter Parley, tornando-se o foco das conversas na primeira fase da seção.

      Ao longo dos anos, e sob o comando de outros editores, a coluna evoluiu para conversas centradas mais nas crianças e nos adolescentes do que numa mitologia pessoal, até formar-se uma verdadeira comunidade de leitores que chegou a exigir que os editores reservassem até 11 páginas numa edição apenas à coluna de bate-papo, em meados da década de 50 daquale século. Na década seguinte, a seção chegou a ter 20.000 leitores e centenas de participantes.

      Pat Pflieger, em seu trabalho An 'Online Community' of the Nineteenth Century (Uma "Comunidade On-Line" do Século Dezenove), defende a tese de que a seção apresentava muitas das características presentes atualmente numa lista de correio moderada da Internet. A riqueza dessa interação gerou o livro Letters from Nineteenth-Century American Children to Robert Merry's Museum Magazine (Cartas de Crianças Norte-Americanas do Século XIX para a Revista 'O Museu de Robert Merry'), à venda no site do autor.

      Em várias seções de bate-papo, o editor era chamado, quando homem, de uncle (tio), e quando mulher, de aunt (tia). Os colegas enigmistas chamavam-se de cousins (primos). O estilo dos editores variava, mas o espaço exíguo e a abundância da correspondência impunham uma fala direta, sem rebuscamentos, e comentários precisos sobre a qualidade do material. Não transparecia a preocupação em evitar críticas que ferissem suscetibilidades ¾ o que deve ter acontecido com freqüência, apesar de ser uma praxe referir-se ao enigmista apenas pelo nom de plume (pseudônimo literário). Mas as crianças e os adolescentes pareciam apreciar o tratamento direto e sincero que recebiam, talvez pelo contraste com a intenção oculta de vários artigos e matérias daquelas publicações: doutriná-las para que fossem "boazinhas" ou para que assumissem esse ou aquele valor do mundo adulto.
Coluna de "chat" da "Family Friend"

Coluna de 'chat' da 'Family Friend'
Coluna de 'chat' da 'Family Friend'
      As imagens acima, escaneadas do volume da revista inglesa The Family Friend (O Amigo da Família) relativo a 1855, mostram que o tratamento de "tio" fazia parte da tradição das publicações infanto-juvenis da época. Na segunda imagem, o Tio Robert explicava aos leitores que "Os jogos perdem seu charme e, portanto, sua utilidade se as respostas acompanham os problemas", justificando o costume de deixar as soluções para o número seguinte. Essa prática, introduzida com os enigmas publicados nos almanaques norte-americanos do início do século XVIII, seria mantida nas publicações infanto-juvenis do século XIX e se tornaria uma das chaves do sucesso dos primeiros livros de palavras cruzadas, publicados a partir de 1924. Nesse caso, os leitores teriam que enviar um cartão solicitando a folha de respostas à editora.

      A popularidade das seções de jogos de palavras gerou uma divisão de tarefas em várias publicações infanto-juvenis, introduzida pela revista Robert Merry's Museum (O Museu de Robert Merry) em 1848 e consolidada por outras revistas e tablóides na década de 50. Um editor ficava responsável pela correspondência geral, centrada em vários assuntos de interesse das crianças e dos adolescentes, e o editor de jogos de palavras passava a cuidar apenas da correspondência relativa aos jogos, assumindo as funções de amigo, crítico e aconselhador dos criadores e solucionadores.

      Veja abaixo a definição desse significado específico de chat, presente no glossário do livro A Key to Puzzledom (Decifrando o Enigmismo), lançado em 1906.
Definição de "chat"

Definição de 'chat'
      "Aquela parte de um departamento de quebra-cabeças devotada à conversa com os colaboradores e ao comentário sobre os assuntos 'místicos'. Geralmente recebe um título dado pelo editor."

      Uma data especial é considerada histórica no estabelecimento dessa relação diferenciada entre os editores e os enigmistas: 16 de fevereiro de 1867. Pouco mais de um mês antes (em 5 de janeiro), a revista Our Boys and Girls (Nossos Meninos e Meninas) havia sido lançada pelo escritor Oliver Optic (nome real: William T. Adams), o qual se tornaria autor de mais de 1000 obras infanto-juvenis. Em 16 de fevereiro, Oliver publicou a carta de um leitor que assinava como "Jersey Boy", na qual havia a sugestão de que fosse criado um "departamento de chat", paralelamente à seção de jogos de palavras chamada Head Work (Trabalho Cerebral).

      Oliver aceitou a idéia e deu o nome de Our Letter Bag (Nossa Sacola de Cartas) à nova seção, que em pouco se tornaria um modelo para os outros editores devido ao estilo direto, sintético e incisivo que o escritor imprimiria a ela, sempre temperando-o com o incentivo ao espírito de comunidade entre os enigmistas.

      Para conhecer mais sobre esse estilo, que diferia bastante do de Samuel Goodrich na Robert Merry's Museum, mais personalista e autocentrado, clique aqui. Para conhecer o estilo da revista Our Young Folks (Nossa Garotada), contemporânea da Our Boys and Girls, clique aqui. Para conhecer o estilo vigente em 1890, com imagens da revista Golden Days for Boys and Girls (Dias Dourados para Meninos e Meninas), clique aqui.
A seção "Our Letter Bag"

A seção 'Our Letter Bag'
      Além dessa contribuição literária, Oliver foi o responsável direto pelo costume da adoção de um nom de plume (pseudônimo) pelos enigmistas, prática iniciada por Samuel Goodrich na seção de bate-papo da revista Robert Merry's Museum (O Museu de Robert Merry), em 1848, e também adotada pelos seus leitores que enviavam jogos de palavras, desde, pelo menos, 1842. Oliver incentivou esse costume nas correspondências e deu o exemplo por ser, ele mesmo, conhecido por um pseudônimo. Mas o editor também foi responsável direto por um fenômeno social ainda mais importante: a difusão dos grupos amadores de enigmistas, em cujos periódicos tornou-se regra adotar seu estilo de conversa na coluna de chat.

      Foi justamente em homenagem a Oliver que surgiu o primeiro clube local de enigmistas dos EUA: a Optic Puzzle Association (Associação de Quebra-Cabeças, de Optic), fundada em Lancaster, na Pensilvânia, em 1874. Durou pouco mais de um ano. A década de 70 também registraria as primeiras tentativas de organização dos enigmistas em âmbito nacional: em 5 de julho de 1876, na Filadélfia, surgia a primeira organização do gênero, The National Puzzlers' Association of America (A Associação Nacional de Enigmistas da América). Sua existência, entretanto, restringiu-se a esse primeiro e único encontro.

      Mas a idéia estava no ar e, estimulados pelos editores das seções de jogos de palavras, os jovens norte-americanos criaram, até o final do século, dezenas de clubes locais. Houve até mesmo associações dedicadas a um só tipo de passatempo, como o Diamond Club (Clube do Diamante), e associações estritamente femininas, como The Mystic Sisterhood (A Irmandade Mística Feminina). Eis alguns deles:
  • Circe Circle
  • Conundrum Club
  • Delian Band
  • Devotees of the Sphinx
  • Diamond Club
  • Dixie Mystics
  • Duquesne Mystics
  • Empire States Puzzlers' League
  • Keystone Puzzlers' League
  • Golden State Puzzlers' League
  • Middle States Amateur Press and Puzzlers' Association
  • Newark Puzzle Club
  • Nova Scotia Amateur Press and Puzzlers' Association
  • Odd Club
  • Pacific Coast Puzzlers' League
  • The Mystic Sisterhood
      O adjetivo "mística(o)" merece uma explicação. Naquela época, o enigmismo também era conhecido como "a arte mística". Para isso contribuíram a prática da adoção de noms de plume (pseudônimos literários), que deu aos participantes do movimento um caráter um tanto secreto, e a própria natureza da atividade dos enigmistas, que se esmeravam em criar desafios lingüísticos cuja resposta vinha sempre oculta. Veja estas definições dos livros A Key to Puzzledom (Decifrando o Enigmismo), lançado em 1906, e Real Puzzles (Quebra-Cabeças Verdadeiros), lançado em 1925.
Enigmismo, a Arte Mística

Enigmismo, a Arte Mística
Enigmismo, a Arte Mística
      A natureza desses clubes transparece na comunicação mostrada no recorte seguinte, escaneado da revista Golden Days for Boys and Girls (Dias Dourados para Meninos e Meninas): eram regionais (devido à dificuldade de comunicação naquele tempo) e compostos de enigmistas com um interesse comum (no caso, o conundrum, adivinha baseada em trocadilho). "O Conundrum Club (Clube do Conundrum) de Nova Iorque deseja aumentar seu quadro e planeja estender suas boas-vindas a membros mais novos. Todos os enigmistas que residam num raio de 10 milhas da cidade de Nova Iorque e que desejem se incorporar a ele podem conseguir todas as informações necessárias enviando seus nomes e endereços a ...":
O "Conundrum Club"

O 'Conundrum Club'
      As meninas também tinham suas agremiações, como afirmado acima. A mais famosa delas foi The Mystic Systerhood (A Irmandade Mística Feminina). Sendo um clube formado por amantes das palavras, não poderiam faltar as discussões sobre terminologia: "O trecho seguinte é da edição de outubro do 'Study': Os encontros da Irmandade Mística Feminina têm sido tão interessantes como sempre, durante os meses de verão. No encontro de agosto discutiu-se o substituto para puzzleress oferecido por Ben Trovato ¾ puzzleiste; decidiu-se que puzzler era um termo amplo o suficiente para abrigar tanto os irmãos quanto as irmãs, e que nenhuma palavra designativa de distinção de sexo era necessária à literatura mística. Seria uma cortesia graciosa se o Reino dos Quebra-Cabeças concordasse com seus desejos nesse respeito."
Os clubes femininos

Os clubes femininos
      Além do estilo sincero e amigável dos editores das seções de jogos de palavras, as crianças e os adolescentes também deviam apreciar os prêmios oferecidos por eles aos leitores que conseguissem resolver os jogos mais difíceis. Veja abaixo uma dessas ofertas, feita pelo tablóide Young Folks' Circle (Círculo da Juventude). Quem primeiro solucionasse o problema proposto ganharia 3 meses de assinatura do New Jersey Puzzler (O Enigmista de New Jersey), um tablóide que continha apenas quebra-cabeças e jogos de palavras.
Prêmio aos solucionadores

Prêmio aos solucionadores
      Para conhecer mais ofertas de prêmios naquelas publicações, clique aqui.

      Na próxima página, veja como os enigmistas se organizaram para produzir publicações amadoras de jogos de palavras.
Referências
A Key to Puzzledom, The Eastern Puzzlers' League, William W. Delaney, Nova Iorque, 1906
American Agriculturist, Orange Judd (Editor), Nova Iorque, janeiro de 1864
An 'Online Community' of the Nineteenth Century, Pat Pflieger, março de 2001
Golden Days for Boys and Girls, James Elverson, Filadélfia, dez. 1890 - nov. 1891
Our Boys and Girls, Oliver Optic, Lee and Shepard (Publishers), Boston, janeiro a dezembro de 1871
Real Puzzles, The National Puzzlers' League, The Norman, Remington Co., Baltimore, 1925
Site da Biblioteca do Congresso Norte-Americano
The Family Friend, G. H. Adams (editor), Ward & Lock, Londres, 1855
What's Gnu? A History of the Crossword Puzzle, Michelle Arnot, Random House, Nova Iorque, 1981
Young Folks' Circle, Mast, Crowell & Kirkpatrick (Proprietors), Springfield, dezembro de 1884
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes