| História das Palavras Cruzadas |
| A participação das meninas norte-americanas no mais fértil período do Enigmismo. |
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As Meninas Também Jogam
Um espaço único de participação ¾¾¾¾¾¾ |
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A participação das meninas norte-americanas nas seções de jogos de palavras das publicações infanto-juvenis e, por extensão, nas outras seções que foram abertas aos jovens leitores a partir da década de 70 do século XX foi um caso à parte, cuja importância torna-se ainda maior quando se considera a situação opressiva em que vivia esse grupo humano, naquele tempo.
Historicamente, o sexo feminino sempre representou um público consumidor de jogos de palavras. No século XVIII, época da introdução desse passatempo nas publicações norte-americanas, as mulheres chegavam a ser mencionadas no próprio título dos jogos como as únicas destinatárias dessa produção intelectual. O exemplo abaixo, publicado numa revista inglesa, a London Magazine (Revista de Londres), ilustra esse relacionamento. O jogo saiu na edição de junho de 1771. |
"Enigma para as damas"
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Curiosa contradição: embora as adivinhas, os enigmas e as charadas daquele século tivessem como criadores vários intelectuais ainda hoje famosos, como Benjamin Franklin, Isaac Newton, Jonathan Swift, Voltaire, Jean-Jacques Rousseau e Lord Byron, entre outros, e a atividade de criação desses jogos denotasse, segundo a visão da época, elevada capacidade intelectual e algum senso artístico, supunha-se que a solução de enigmas, charadas e adivinhas não era uma atividade própria do sexo masculino.
É possível que tenha acontecido com os jogos de palavras, então, o que viria a acontecer com os folhetins brasileiros do final do século XIX e do início do século XX e, em grau maior, com as telenovelas nas décadas de 60 e 70 do século XX, criações originariamente destinadas ao público feminino: um público "oculto", composto por homens, também se deliciava com esses produtos culturais, mas não era "de bom-tom" reconhecer o prazer porque a visão oficial da sociedade as considerava uma atividade intelectual ou social menor. Aproveitando-se dessa familiaridade com os jogos de palavras, várias mulheres tornaram-se autoras de livros de passatempos, especialmente a partir do início do século XIX. Justamente nesse período, o público-alvo dos jogos de palavras começou a mudar. Brincar com as palavras é uma atividade indissociável da infância; assim, quando as publicações infanto-juvenis começaram a incluir jogos de palavras em suas páginas, na década de 30 do século XIX, a receptividade foi imediata. Ao longo do século, como ficou claro em página anterior desta seção, a coluna de jogos de palavras se tornaria um item quase obrigatório naquelas publicações. O novo público incluía as meninas. A princípio, assim como os meninos, elas exerciam uma função secundária, como solucionadoras de jogos. Logo, a intensidade da participação das crianças e dos jovens, também manifestada na seção de chat (bate-papo), levou os editores da coluna de jogos a aceitar contribuições dos leitores. Já na década de 40 as contribuições de leitores apareciam na revista Robert Merry's Museum (O Museu de Robert Merry), como esta reproduzida abaixo: I am a word of 6 letters. My 1, 2, 6, 5, is what Oliver Twist asked for. My 3, 2, 1, is a nickname for a boy. My 4, 2, 1, 5, every one loves. My 1, 2, 3, 4, every good house-keeper dreads. My whole is my dearest friend. Resposta: more; tom; home; moth; mother. O jogo, um enigma numérico, saiu em abril de 1842. O autor era identificado como Fanny, provavelmente uma menina. Na segunda metade do século XIX, a participação das meninas nas colunas de jogos de palavras, incentivada pelos editores, tornou-se uma regra. Porém, torna-se difícil quantificá-la devido ao costume da adoção de noms de plume (pseudônimos) que muitas vezes ocultavam o sexo da pessoa. Mas quando os nomes reais apareciam na relação de solucionadores, podia-se comparar o desempenho dos dois grupos. Na imagem abaixo, escaneada da revista Harper's Young People (Gente Jovem, da Harper) de 25/11/1884, dos 16 nomes registrados, pelo menos 8 são de meninas; dois não permitem conclusão porque o prenome foi substituído por uma inicial; os outros 6 são de meninos. |
A participação das meninas
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| Já em janeiro de 1868, o editor de jogos do tablóide Frank Leslie's Boys' and Girls' Weekly (Semanário para Meninos e Meninas, de Frank Leslie), revelava na seção de bate-papo: "Conte à sua irmã Belle que ela está enganada, pois preferimos as meninas ¾ se não por outra razão, pela esperteza delas em ganhar a maioria dos prêmios." |
As campeãs de prêmios
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As meninas também acompanharam os rapazes na formação de grupos e clubes de enigmistas, alguns dos quais só admitiam mulheres, como o intitulado The Mystic Systerhood (A Irmandade Mística Feminina). Por fim, participaram às vezes sorrateiramente da Eastern Puzzlers' League, utilizando pseudônimos masculinos e valendo-se do fato de que a comunicação por cartas permitia ocultar o sexo do remetente.
Mas não foram apenas as representantes jovens do sexo feminino que tiveram importância nesse período do Enigmismo, anterior à criação das palavras cruzadas. Muitas das publicações infanto-juvenis tinham escritoras já consagradas como editoras ou autoras das principais histórias seriadas. Louisa May Alcott editou a revista Robert Merry's Museum (O Museu de Robert Merry), que circulou entre 1842 e 1871, participando ainda da revista Our Young Folks (Nossa Garotada), publicada entre 1865 e 1873, e da St. Nicholas: For Girls and Boys (São Nicolau: Para Meninas e Meninos), lançada em 1873. Harriet Beecher Stowe, autora do clássico "A Cabana do Pai Tomás", contribuiu com histórias e artigos a partir do primeiro número da Our Young Folks (Nossa Garotada). E Mary Mapes Dodge foi o cérebro por trás da revista St. Nicholas, ainda hoje considerada a mais culta publicação infanto-juvenil da História. Isso para citar apenas algumas. |
A obra-prima de Louisa May Alcoot (1868)
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| As mulheres adultas também atuavam como editoras de jogos de palavras. A mais famosa nos EUA foi Aunt (Tia) Sue, pseudônimo de Susanna Newbould, co-editora da revista Robert Merry's Museum e responsável pela seção de jogos de palavras. |
A coluna de "Aunt Sue"
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As publicações para o público feminino tiveram grande importância na história dos jogos de palavras, como vimos antes em vários pontos desta "História". O primeiro livro norte-americano totalmente dedicado aos jogos de palavras intitulava-se The New American Oracle; or Lady's Companion (O Novo Oráculo Americano; ou o Companheiro das Damas). A primeira edição saiu em 1806. Numa revista feminina, a Godey's Lady's Book (O Livro da Dama, de Godey), em outubro de 1862, ocorreu a divulgação mais importante do jogo do quadrado de palavras nos Estados Unidos, três anos após a criação do passatempo.
Já no século XX, as revistas femininas Good Literature (Boa Literatura) e People's Home Journal (A Revista do Lar) foram as únicas divulgar o passatempo dos blended squares (quadrados mesclados), o mais importante jogo do período imediatamente anterior ao surgimento das palavras cruzadas. Outra participação importante das mulheres ficou por conta das mães dos pequenos enigmistas. Várias comunicações enviadas às seções de bate-papo das publicações infanto-juvenis revelavam que muitas meninas e meninos haviam adquirido o hábito de lê-las por uma iniciativa da mãe ou porque, quando crianças, as mães também tinham comprado a revista. A imagem abaixo, escaneada da edição de 25/11/1884 da Harper's Young People (Gente Jovem, da Harper) contém a seguinte afirmação de uma "pequena menina do Mississippi": "Mamãe lê a 'Harper's Young People' para meu irmãozinho e para mim, e nós ficamos felizes por tê-la (a revista)." |
Mamães leitoras
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| Os dois recortes abaixo referem-se a cartas publicadas pela St. Nicholas em novembro de 1895. No primeiro, o menino escreve: "Mamãe comprou sua revista por 20 anos, para minha irmã que agora está casada, e eu sempre espero a chegada (da publicação) com muita impaciência." Na segunda comunicação, outro menino conta: "Eu leio a sua revista há oito anos, e mamãe a lia quando ela se chamava 'Our Young Folks'." A Our Young Folks, publicada de 1865 a 1873, fundiu-se com a St. Nicholas em 1873. |
De mãe para filhos
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Esse espaço de participação aberto a meninas e mulheres pelas publicações infanto-juvenis representou uma bem-vinda exceção naquela época, marcada pela falta de oportunidades para o sexo feminino e pela restrição a seus direitos. Se quiser conhecer uma série de imagens associadas à condição feminina, de meados do século XIX à década inicial do século XX, clique aqui.
Após a criação das palavras cruzadas, como veremos na seção relativa à Década de 10, o sexo feminino continuou a ter uma importância fundamental, agora no desenvolvimento do passatempo e exclusivamente por conta das mulheres adultas. Recapitulando a estrutura desta seção, afirmou-se no início que quatro motivos principais explicavam a primazia dos jovens norte-americanos no desenvolvimento dos jogos que precederam as palavras cruzadas:
Criado em 1859 na Inglaterra e divulgado nos Estados Unidos em 1859, numa publicação esportiva, e em 1862, na mais importante revista feminina da época, o quadrado de palavras inspirou a criação de dezenas de jogos de cruzamento de palavras baseados em formas geométricas, já mostrados em detalhes nas seções sobre os quadrados de palavras, os diamantes de palavras e os outros jogos de cruzamento de palavras. Na Inglaterra, único outro país onde poderia ocorrer esse desenvolvimento, não se formaram as três condições expostas acima, especialmente as duas últimas, só verificadas nos Estados Unidos. Esses fatores, tomados em conjunto, explicam o feito daqueles jovens enigmistas, responsáveis pelo mais fértil período já registrado na história da Arte Mística. Para ler um resumo dos fatos tratados nesta seção, clique aqui. Para ler uma cronologia desses fatos, clique aqui. Na próxima página, leia uma síntese dos conhecimentos revelados por esta "História" na parte relativa aos ancestrais das palavras cruzadas, que vai de 1700 a.C. a 1913. |
| Referências |
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American Agriculturist, Orange Judd (Editor), Nova Iorque, janeiro de 1864
Frank Leslie's Boys' and Girls' Weekly, Frank Leslie, Nova Iorque, 4/1/1868 Harper's Young People, Harper & Brothers, Nova Iorque, 25/11/1884 Margaret Gatty, em "Ecclesfield History Home Page" Nineteenth-century American Children & What They Read, Pat Pflieger Puzzlers in Convention, The New York Times, 26/12/1888 Site da Encyclopaedia Britannica St. Nicholas: an Illustrated Magazine for Young Folks, The Century Co., Nova Iorque, nov. 1895 - abr. 1896 The London Magazine, R. Baldwin, Londres, junho de 1771 The Puzzler's Paradise, Helene Hovanec, Paddington Press Ltd., Nova Iorque, 1978 |
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice
| Ancestrais | A Era de Ouro do Enigmismo
Autor: Sérgio Barcellos Ximenes
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