História das Palavras Cruzadas

Um resumo das informações apresentadas até este ponto do texto.
 
O Que Sabemos Até Aqui - 8
A Era de Ouro do Enigmismo
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  • No século XVIII, vários escritores e intelectuais de renome, como Benjamin Franklin, Isaac Newton, Jonathan Swift, Voltaire, Jean-Jacques Rousseau e Lord Byron, criaram jogos de palavras (adivinhas, charadas e enigmas), mas a atividade de solução desses jogos era considerada um lazer intelectual de categoria menor, relegado às mulheres.

  • O ano de 1789 viu o lançamento da primeira revista infanto-juvenil norte-americana, The Children's Magazine (A Revista das Crianças), que deixou de circular no mesmo ano. Apenas uma outra revista do gênero foi lançada até o final do século, The Youth's News Paper (O Jornal da Juventude). Ela também só foi editada no ano de lançamento (1797).

  • O século seguinte (XIX) assistiu ao "boom" das publicações infanto-juvenis, concentrado especialmente nas revistas e nos tablóides. Dois fatores contribuíram para esse desenvolvimento: o aperfeiçoamento da tecnologia de imprensa e a necessidade de passar às crianças e aos adolescentes os valores da nova sociedade norte-americana, fundados no trabalho, na obediência aos mais velhos e no comportamento moral. O censo de 1880 registrou 217 publicações infanto-juvenis ativas no país, a maioria delas ligada a instituições religiosas. No final do século, entretanto, alguns títulos de revistas e tablóides laicos chegaram a vender centenas de milhares de exemplares por mês.

  • A primeira metade do século XIX foi marcada pelo estabelecimento das características editoriais que seriam consolidadas nas publicações infanto-juvenis da segunda metade do século, a saber:

    1. O conteúdo padrão constituía-se de: histórias seriadas nas quais crianças e adolescentes viviam aventuras em lugares exóticos; matérias sobre História, o mundo animal, Ciências, Geografia, Música, Esportes, etc.; poemas; textos curtos centrados em atualidades; sugestões de atividades e jogos; artigos disciplinadores ou religiosos; gravuras que geralmente retratavam crianças, adolescentes e animais; um espaço para as cartas dos jovens leitores; e uma seção de enigmas matemáticos e de jogos de palavras.

    2. A seção de correspondência ficava sob o comando de um adulto, e nela as crianças e adolescentes tinham a liberdade de conversar sobre qualquer assunto, recebendo em troca os comentários do editor.

      Historicamente, esse item das publicações foi prenunciado pela divulgação esporádica de cartas dos leitores na Parley's Magazine (A Revista de Parley), lançada em 1833. A primeira seção fixa de cartas deve-se à Robert Merry's Museum (O Museu de Robert Merry), lançada em 1841. Nela, os jovens leitores podiam usar pseudônimos (noms de plume) para ocultar seus nomes verdadeiros.


    3. A seção de jogos de palavras era de responsabilidade de um adulto ou mesmo de um jovem enigmista, e dela as crianças e os adolescentes podiam participar enviando soluções, cuja lista de acertadores seria publicada no número seguinte, ou enviando jogos, publicados após uma análise técnica do editor.

      Historicamente, o primeiro jogo de palavras publicado em revista infanto-juvenil norte-americana saiu em 7 de abril de 1815: um enigma de 18 linhas publicado na Youth's Cabinet (Gabinete da Juventude). Entretanto, somente em 1832 uma outra revista, a Youth's Literary Gazette (Gazeta Literária da Juventude), instituiria a primeira seção de jogos de palavras. Pelo menos desde 1842, na Robert Merry's Museum (O Museu de Robert Merry), criações dos leitores receberam acolhida em sua seção de jogos, muitas delas apresentando pseudônimos (noms de plume) no lugar dos nomes dos jovens autores.

      Ainda nessa primeira metade do século, os jornais adultos aderiram às colunas de jogos de palavras. Em 1846, o semanário The Dollar Newspaper, da Filadélfia, publicava uma coluna intitulada Puzzles (Quebra-Cabeças), oferecendo acrósticos, enigmas, rébus, adivinhas e charadas aos leitores.


  • Na segunda metade do século XIX, as colunas de chat (bate-papo) disseminaram-se nas publicações infanto-juvenis, cativando os jovens leitores. A primeira a apresentar um desenvolvimento surpreendente foi a Merry's Monthly Chat with his Friends (Bate-Papo Mensal de Merry com seus Amigos), que fazia parte da revista Robert Merry's Museum (O Museu de Robert Merry), criada em 1848. A participação na coluna atingiu o auge na década de 60, quando se formou uma verdadeira comunidade que contava com 20.000 leitores e centenas de participantes.

    O mais importante editor dessas seções foi o escritor Oliver Optic, pseudônimo de William T. Adams. Atendendo a uma sugestão de um leitor ("Jersey Boy"), oferecida em 16 de fevereiro de 1867, ele deu início a um "departamento de chat" revista Our Boys and Girls (Nossos Meninos e Meninas), paralelamente à seção de jogos de palavras chamada Head Work (Trabalho Cerebral), também conduzida por ele. Nesta nova seção, Oliver viria a estabelecer o estilo padrão de conversa entre editor e leitores, especialmente os enigmistas: sintético (pela quantidade de cartas a serem respondidas), direto e incisivo (nos elogios e críticas), e ao mesmo tempo afetuoso e paternal (incentivando novatos e veteranos a aperfeiçoarem as suas criações).


  • A partir de meados do século, algumas revistas passaram a incluir uma seção específica de chat (bate-papo) no departamento de jogos de palavras, sem eliminar a seção de correspondência onde outros assuntos eram discutidos. Na nova seção, o editor de jogos de palavras exercia várias funções: orientação técnica no sentido do aperfeiçoamento; encorajamento dos novatos; crítica aos relapsos e plagiadores; promoção de parcerias entre os enigmistas; e, nas décadas finais do século, incentivo à formação de grupos e à participação neles.

  • Na década de 70 deu-se a popularização dos jogos de cruzamento de palavras baseados em formas geométricas. O primeiro jogo nesse novo estilo, o quadrado de palavras, tinha sido divulgado em 2 de julho de 1859 pela revista inglesa Notes and Queries (Notas e Indagações). Nos Estados Unidos, ele saiu em 24 de setembro de 1859 num jornal esportivo, Wilkes' Spirit of the Times (O Espírito da Época, de Wilkes), e em outubro de 1862 na mais importante revista feminina norte-americana, a Godey's Lady's Book (O Livro da Dama, de Godey).

    O quadrado de palavras inspiraria a criação de mais de 180 tipos básicos e modalidades de jogos de cruzamento de palavras baseados em formas geométricas e objetos, até o final do século. A maioria dos jogos tinha crianças e jovens como seus criadores.


  • A introdução dessa novidade técnica nas publicações infanto-juvenis, no início da década de 70, coincidiu com a mudança de gosto das crianças e dos jovens, em relação ao conteúdo das seções de jogos de palavras. Antes apegadas aos jogos publicados em revistas, tablóides e jornais religiosos, elas passaram a preferir os novos passatempos de cruzamento de palavras. Os jogos das publicações religiosas não ofereciam novidades havia muito tempo, e seu conteúdo revelava uma intenção moralizadora que não existia nas seções de jogos das publicações infanto-juvenis leigas, onde predominava o aspecto lúdico da atividade.

  • Outro fato importante da época foi a consolidação e a difusão das seções de jogos de palavras nos jornais adultos e, em grau menor, nas revistas destinadas a esse público.

  • Em conseqüência, um grande número de crianças e adolescentes passou a contar com uma oportunidade única: a de ter seu nome e seu trabalho divulgados em toda a mídia existente então: jornais e revistas destinados aos adultos, e revistas e tablóides infanto-juvenis. Contrastando com o dia-a-dia monótono e restritivo que viviam, essa oportunidade de destaque social deve ter atraído centenas de crianças e jovens para a prática do enigmismo. Com isso, a proporção de jogos aprovados para jogos rejeitados pelos editores chegou, em alguns casos, a 1 para 200.

  • O amor aos jogos de palavras levou os jovens enigmistas a criarem grupos dedicados ao passatempo. O primeiro clube local surgiu em 1874, na cidade de Lancaster, na Pensilvânia, e intitulava-se Optic Puzzle Association (Associação de Quebra-Cabeças, de Optic), nome dado em homenagem a Oliver Optic. O clube durou um ano.

    Dezenas de outros clubes foram fundados até o final do século, alguns deles formados exclusivamente por mulheres, como a Mystic Systerhood (Irmandade Mística Feminina), mas quase todos tiveram curta duração. O mais bem-sucedido seria a Eastern Puzzlers' League (Liga dos Enigmistas do Leste), fundada em 4 de julho de 1883 por um grupo de 34 jovens e adultos. Em 1906 a Liga lançaria o livro A Key to Puzzledom (Decifrando o Enigmismo), a melhor fonte histórica para o conhecimento da era anterior às palavras cruzadas. Em 1920, a EPL se transformaria na National Puzzlers' League (Liga Nacional dos Enigmistas), grupo existente até hoje.


  • Junto com os clubes, vieram os jornaizinhos de jogos de palavras. Esses periódicos de poucas páginas eram produzidos domesticamente com o uso de máquinas impressoras primitivas compradas pelo Correio, e distribuídos entre membros do clube e amigos. Seu conteúdo assemelhava-se ao das seções de jogos de palavras das publicações infanto-juvenis, apresentando vários jogos e a correspondência dos membros. A primeira publicação desse tipo surgiu em janeiro de 1875. Era editada por "W. L. Small", da cidade de Auburn, em Maine, tinha 4 páginas de 3 colunas e durou apenas 20 meses.

    Mais de 120 outros periódicos amadores de jogos de palavras seriam criados até o final do século, mas a média dos exemplares não passaria dos 10 números, para a maioria. Alguns periódicos especializavam-se num tipo de passatempo: diamantes, quadrados, criptogramas, conundrums (adivinhas baseadas em trocadilho), etc.


  • Ainda na década de 70, mais especificamente em 1877, surgiram os diretórios de nomes de enigmistas e as compilações de tipos de jogos de palavras. No final do século, os diretórios chegaram a ter o nome de milhares de enigmistas.

  • As publicações infanto-juvenis, responsáveis pelo início desse movimento graças às suas seções de chat (bate-papo) e de jogos de palavras, capitalizaram o ímpeto dos jovens ao oferecerem prêmios em bens ou dinheiro pela criação e pela solução dos jogos nelas publicados, a partir da década de 60. Na década seguinte, estimulada pela receptividade dos leitores a um concurso lançado em novembro de 1875, a revista St. Nicholas: For Girls and Boys (São Nicolau: Para Meninas e Meninos) anunciou, em janeiro de 1876, que abriria suas páginas às contribuições dos jovens leitores. Essas passaram a ser publicadas com os nomes dos autores substituídos por suas iniciais.

    Em dezembro de 1883, a St. Nicholas anunciava que as melhores contribuições, além da publicação, receberiam prêmio em dinheiro. Em meados da década seguinte, concursos individuais chegaram a resultar em mais de 10.000 participações, o que estimulou os editores a criarem a St. Nicholas League (Liga de São Nicolau), em 1899.

    A revista, então, passou a solicitar a seus leitores o envio de contos, poemas, desenhos, exercícios de caligrafia, cópias de textos, traduções e fotografias, além de jogos de palavras, que concorriam em duas categorias: criação e solução. Todos os participantes deveriam ter menos de 18 anos.

    Grupos de membros da Liga passaram a ser criados autonomamente, recebendo o reconhecimento da St. Nicholas. Em 1908, já havia mais de 1060 desses grupos associados à Liga, alguns deles contando com vinte ou mais membros.


  • A Harper's Young People (Gente Jovem, da Harper), lançada em 1879, foi a única outra publicação que seguiu o caminho participativo iniciado pela St. Nicholas, chegando a precedê-la na formação de uma liga cujos membros também disputavam prêmios pelas contribuições. A liga, inspirada pela seção interativa da revista, a Round Table (Távola Redonda), chamava-se Order of the Round Table (Ordem da Távola Redonda). O total de prêmios oferecido ultrapassava a quantia de 1000 dólares. Grupos de membros chegaram a ser formados fora dos Estados Unidos. O sucesso da iniciativa fez com que a seção virasse uma revista à parte, em 1895, chamada Harper's Round Table (A Távola Redonda da Harper). A experiência durou até 1899.

  • O relacionamento criativo estabelecido pela Harper's Round Table e pela St. Nicholas com seus jovens leitores, baseado na produção de material para várias de suas seções, permite afirmar que havia mais interatividade entre algumas revistas infanto-juvenis norte-americanas do final do século XIX e do início do século XX e seus leitores, do que jamais houve, em qualquer tempo, entre esse público e as publicações destinadas a ele, ou mesmo entre os sites dedicados a crianças e adolescentes e seus usuários, na atualidade.

  • A experiência realizada por essas revistas não pôde se disseminar para outras publicações por vários motivos, entre eles a necessidade de uma grande equipe interna para receber milhares de contribuições por mês; o domínio do mercado infanto-juvenil pelas publicações mais conceituadas já existentes; a mudança de foco dos editores, dos leitores para os assinantes, na década de 90 daquele século; e a mudança de gosto do público, que passou a preferir revistas ilustradas, baratas e centradas em temas da atualidade.

  • Nas última década do século XIX, havia mais seções de jogos de palavras nas publicações destinadas aos adultos (revistas e jornais) do que nas publicações infanto-juvenis. Esse fato deveu-se em parte à concentração do gênero infanto-juvenil em apenas três revistas, a St. Nicholas: an Illustrated Magazine for Young Folks (São Nicolau: uma Revista Ilustrada para os Jovens), a Harper's Round Table (A Távola Redonda da Harper) e a Golden Days for Boys and Girls (Dias Dourados para Meninos e Meninas), e num tablóide, The Youth's Companion (O Companheiro de Juventude).

  • A geração de jovens enigmistas que viveu entre cerca de 1870 e 1900 merece o título de "a mais capaz, criativa e original da História", devido à autoria de mais de 180 tipos básicos e modalidades de jogos de cruzamento de palavras. Ela foi um produto do contexto mais amplo de participação criativa que caracterizou a época, graças à visão generosa de alguns editores de publicações infanto-juvenis, e deixou para a geração seguinte uma herança preciosa: as bases do passatempo das palavras cruzadas.
  • Entre esses enigmistas, as meninas tiveram uma participação marcante, sem que houvesse nenhuma discriminação a elas nas seções de jogos de palavras. Já as mulheres adultas ajudaram a estabelecer essa "era de ouro" exercendo várias funções: como escritoras e editoras de publicações infanto-juvenis; como editoras de seções de jogos de palavras; como autoras de livros desses jogos; e como mães que incentivavam a leitura das publicações infanto-juvenis e a participação dos pequenos enigmistas nos concursos. As publicações femininas também serviram como meio de divulgação de jogos importantes, notadamente o quadrado de palavras, na Godey's Lady's Book (O Livro da Dama, de Godey), e os quadrados mesclados, na Good Literature (Boa Literatura) e na People's Home Journal (A Revista do Lar).

  • Pelas razões e circunstâncias expostas acima, que só ocorreram nos Estados Unidos, coube aos enigmistas norte-americanos levar avante o desenvolvimento da Arte Mística, embora o jogo que tenha possibilitado esse avanço, o quadrado de palavras, fosse uma criação inglesa.
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes