História das Palavras Cruzadas

A descoberta que invalidou as interpretações cristãs sobre o significado do Quadrado Sator.

 

Tanto Esforço Para (Quase) Nada
Quando teorias e fatos não batem
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      Foram centenas de anos, milhares de horas de estudo, dezenas de livros e artigos, um bom punhado de hipóteses sensatas e outras tantas absurdas ¾ para tudo voltar à estaca zero a partir de 1937. Nesse ano foi divulgado um estudo científico sobre dois exemplares da versão 2 do Quadrado Sator (iniciada com ROTAS), achados durante as escavações das ruínas da cidade italiana de Pompéia, soterrada pela erupção do Vesúvio em 79.

      O primeiro desses objetos, parcialmente destruído, foi encontrado em 5 de outubro de 1925 na casa pertencente a P. Paquius Proculus, situada na via dell'Abbondanza. Sua divulgação aconteceu inicialmente num artigo científico publicado em 1929. Entretanto, o autor do texto não reconheceu no objeto as palavras do Quadrado Sator, devido ao desgaste sofrido pela pedra. O segundo exemplar foi encontrado seis anos depois, a 12 de novembro de 1936, por Matteo Della Cortepelo, especialista italiano em inscrições antigas. Ao contrário do primeiro, esse era um exemplar completo e estava gravado nos muros da Grande Palestra (local para exercícios coletivos de ginástica), situada próximo ao Anfiteatro da antiga colônia romana.

      As descobertas são importantes por dois motivos. Primeiro, trata-se dos mais antigos exemplares do Quadrado até hoje encontrados. Segundo, elas invalidam todas as interpretações baseadas numa origem cristã do objeto. Cinco argumentos sustentam essa conclusão:

  • Pompéia era uma espécie de cidade de recreio para os romanos ricos, e em suas ruínas não foram encontrados outros vestígios de práticas cristãs ¾ o que confirmou a noção histórica de que, por volta de 79, o Cristianismo ainda não havia chegado àquela região.

  • O quadrado apresenta palavras latinas, enquanto o idioma usado pelos cristãos primitivos era o grego.

  • Como já foi mencionado, passagens do "Apocalipse" são lembradas para justificar a inclusão do "A" e do "O", representando "alfa" e "ômega", no arranjo em forma de cruz. Esse livro da Bíblia foi escrito entre os anos de 85 e 95, pelo menos 6 anos depois da confecção dos quadrados descobertos em Pompéia.

  • A cruz se tornou um símbolo cristão, largamente difundido, apenas a partir do século III.

  • Também data daquele século o início da prática cristã de ocultar significados religiosos por meio de criptogramas, anagramas e outros recursos, devido à perseguição que os adeptos dessa religião passaram a sofrer.
O autor do primeiro registro escrito sobre o Quadrado Sator, o naturalista romano Plínio o Velho, faleceu durante a erupção do Vesúvio, que soterrou a cidade de Pompéia ¾ a mesma cidade na qual foi encontrado o mais antigo exemplar do objeto.
      Subitamente, todas as opções não cristãs tornaram-se naturais candidatas aos olhos dos especialistas. Como "Arepo" é considerado uma palavra céltica pela maioria deles, sugeriu-se que a origem do quadrado seria a Gália (região de Asterix, herói dos quadrinhos). Entretanto, de todas as hipóteses levantadas desde então, em algumas dezenas de artigos e livros, a mais aceita atualmente entre os cientistas atribui a autoria desse quadrado de palavras ao Mitraísmo, religião de origem indo-iraniana, contemporânea de Jesus, que chegou a se tornar oficial em Roma e que guarda muitas semelhanças com o Cristianismo: a confissão, a comunhão, o batismo, as noções de céu e de inferno, a santificação do domingo e do dia 25 de dezembro, entre outras. Essa teoria foi exposta por Walter O. Moeller no livro The Mithraic Origin and Meanings of the Rotas-Sator Square (A Origem Mitraísta e os Significados do Quadrado Rotas-Sator), lançado em 1973.

      Veja o registro do livro na Biblioteca do Congresso Norte-Americano:
           Author:        Moeller, Walter O.
           Title:         The Mithraic origin and meanings of the
                          rotas-sator square. [By] Walter O. Moeller.
           Published:     Leiden, Brill, 1973.
           Description:   52 p. illus. 25 cm.
           Series:        Études préliminaires aux religions orientales
                          dans l'Empire romain, t. 38
           LC Call No.:   BF1623.R74M63
           Dewey No.:     133.3/3
           ISBN:          9004037519
           Notes:         Bibliography: p. [44]-52.
           Subjects:      Rotas-Sator square.
                          Mithraism.
           Control No.:   3155043
      Não se pense, porém, que os defensores da origem bíblica desapareceram. Alguns, não vendo possibilidade de negar que o Quadrado tenha surgido, pelo menos, por volta da década de 70 do primeiro século, tentaram encaixar esse fato no contexto de sua crença. Assim, a autoria do objeto já foi atribuída a judeus não-cristãos familiarizados com o latim, provavelmente cativos capturados por Pompéia durante a conquista de Jerusalém, em 63 a.C. As palavras fariam referência ao Livro de Ezequiel. Toda a ênfase interpretativa colocada na figura da cruz, entretanto, teria que ser abandonada, em se tratando de judeus vivendo pouco depois da morte de Jesus (da qual foram considerados culpados pelos cristãos).

      Outros preferiram negar a validade das descobertas de Pompéia. Entre eles surgiu a mirabolante explicação que atribui a autoria das inscrições em Pompéia a "exploradores cristãos" das ruínas da cidade, em época bem posterior à tragédia, desejosos de marcar a presença ilustrando sua fé com o suposto sinal secreto.
Imagem de um corpo petrificado descoberto em Pompéia, conforme ilustração publicada na revista St. Nicholas: For Girls and Boys (São Nicolau: Para Meninas e Meninos), em setembro de 1877
"Uma Vítima da Lava"

Imagem de corpo petrificado em Pompéia
      Como foi dito antes, o naturalista romano Plínio o Velho já havia registrado a existência do Quadrado Sator em sua "História Natural" por volta do ano 70. O tamanho da obra (37 volumes) e o fato de ter sido feita apenas uma rápida referência ao objeto devem ter contribuído para que esse registro não fosse de conhecimento geral e para que não pesasse na decifração do significado e na elaboração das teorias, durante as discussões sobre o Quadrado.

      Fora as propostas de interpretação feitas por cientistas, hipóteses leigas também foram levantadas ao longo dos séculos. Segundo o Penguin Dictionary of Symbols (Dicionário de Símbolos da Penguin), o Quadrado Sator " ... has been interpreted in thousand of different ways by alchemists and students of the occult" (... tem sido interpretado em milhares de diferentes maneiras por alquimistas e estudantes de Ocultismo).

      Uma dessas maneiras persiste até hoje em páginas da Web e livros esotéricos: o quadrado seria um meio de reconhecimento dos Templários após a dissolução da Ordem no século XIV. Vários exemplares da inscrição foram encontrados em locais de reunião desses cavaleiros ou em sua vizinhança, o que serviu para reforçar a hipótese. Outra interpretação que aparece com freqüência é o uso em igrejas como esconjuro contra incêndios.

      Tenha a origem que tiver, o Quadrado Sator possui uma importância inegável na história das palavras cruzadas por ser o mais remoto exemplo de um objeto que apresenta estas três características: contém cruzamentos de palavras; todas as suas palavras cruzam entre si; e elas são escritas com letras do alfabeto ocidental.

      Na próxima página você conhecerá o Quadrado Sator de Manchester, a mais recente descoberta desse misterioso arranjo de palavras, realizada em 1978 na Grã-Bretanha.
Referências
"Enciclopédia Mirador Internacional", Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda, 1977
Listas de discussão sobre o Quadrado Sator
Site da Biblioteca do Congresso Norte-Americano
Site Pegaso
St. Nicholas: For Girls and Boys, Scribner & Co., Nova Iorque, nov. 1876 - out. 1877
The Cirencester Word-Square, Donald Atkinson, The Bristol and Gloucestershire Archaeological Society, 1957
The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984
The Strange World of the Crossword, Roger Millington, Book Club Associates, Londres, 1975
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice | Ancestrais | O Quadrado Mágico Sator

Autor: Sérgio Barcellos Ximenes