História das Palavras Cruzadas

Notícias sobre os Estados Unidos e o mundo publicadas no jornal The World em abril e maio de 1913.
 
O Mundo à Beira da Guerra
Enquanto isso, diversão e trabalho
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       O discurso inaugural do presidente William Howard Taft em 1913 retomou uma tradição quebrada havia 112 anos, quando o então presidente John Adams também fora ao Congresso para ler o discurso. Além disso, Taft seria o primeiro presidente a dar coletivas de imprensa duas vezes por semana, mas apenas por algum tempo. Depois passou a falar exclusivamente para os repórteres do Cincinnati Times-Star, um jornal de propriedade da família.
Um discurso histórico

Wilson Taft
       O poderio industrial dos EUA começava a marcar presença nos cinco continentes: "Manufaturados norte-americanos são enviados para todos os países e todas as colônias do mundo", afirmava a matéria do World. Em 1912, o Departamento do Comércio registrara vendas para mais de 100 países, dependências e colônias, 70 dos quais tinham comprado automóveis. Os aeroplanos eram exportados para 11 países, incluindo o Brasil; os arados, para 80 deles; já os alimentos preparados para o desjejum (enlatados) eram consumidos por 90 nações.
Exportando tudo, de enlatados a aviões

Exportando tudo - 1
Exportando tudo - 2
Exportando tudo - 3
Exportando tudo - 4
       Nos esportes, o basquete já mostrava a flexibilidade que faria dele uma das preferências nacionais nos Estados Unidos. A manchete do World informava os leitores sobre a mudança de duas regras, decidida pela entidade reguladora da prática.
Mudanças nas regras do basquete

Regras do basquete
       O boxe ainda engatinhava. Somente naquele ano, 1913, os praticantes do esporte receberam a autorização oficial para a realização de lutas no Estado de Minnesota, graças a uma lei que disciplinava as condições de disputa e que instituía um órgão de promoção e fiscalização dos combates.
Início da legalização do boxe

Legalização do boxe - 1
Legalização do boxe - 2
       Estranhamente, o nosso futebol (chamado de soccer) era um esporte de aparente futuro nos Estados Unidos. Lê-se, no primeiro texto abaixo, que a American Football Association (Associação Americana de Futebol) promovia competições nacionais noticiadas pela imprensa. A segunda imagem contém um texto ainda mais curioso. O título: "Columbia fará do futebol o exercício do outono". O texto: "Convencida de que o futebol será o esporte ao ar livre preferido das faculdades norte-americanas, a Universidade de Columbia anunciou ontem que, durante o outono, todas as outras atividades físicas ao ar livre serão deixadas de lado em favor do futebol".
Futebol, o esporte do futuro?

Futebol nos EUA - 1
Futebol nos EUA - 2
Futebol nos EUA - 3
       É de 6 de maio de 1913 a notícia de um ato que, por várias décadas, mancharia a imagem do Comitê Olímpico Internacional, o organizador das Olimpíadas. A medida contou com o aval do Barão de Coubertin (1863 - 1937), idealizador da competição moderna e então presidente do COI.

       A manchete relatava a aprovação dada pelo Comitê ao comportamento dos dirigentes da Amateur Athletic Union (União dos Atletas Amadores) no caso do índio James (Jim) Thorpe, vencedor das competições de decatlo e pentatlo nos Jogos de Estocolmo, realizadas em 1912. Na cidade suíça de Genebra, sede do COI, os 60 delegados participantes da décima quinta reunião anual da entidade decidiram por unanimidade tirar o primeiro lugar e os prêmios de Jim Thorpe, passando essas honrarias ao segundo colocado de cada prova. Também os troféus mudaram de mãos: o Viking Ship (Navio Viking), oferecido pelo imperador da Rússia ao vencedor do decatlo, e o busto de bronze do rei da Suécia, oferecido pelo soberano daquele país ao vencedor do pentatlo.

       A acusação feita ao atleta (e confirmada por ele) fora a de profissionalismo: aceitar dinheiro para participar de competições oficiais. Thorpe confessou a um jornal dos EUA que, alguns anos antes de se tornar um atleta olímpico, jogara por um time de beisebol da Carolina do Norte, ganhando cerca de 20 dólares por semana. A prática era comum entre os estudantes daquele tempo, em vários esportes, mas nenhum atleta olímpico admitia esse deslize para não perder a condição de "amador", obrigatória segundo os estatutos do COI.
A histórica punição a Jim Thorpe

O caso Jim Thorpe - 1
O caso Jim Thorpe - 2
       O enfoque dado pela matéria mostra que a moral da época estava de acordo com a medida do COI, embora muitos historiadores tenham ressaltado a origem indígena de Thorpe como um fator importante na punição.

       O gesto bonito veio dos atletas beneficiados com a desclassificação do americano: o sueco Hugo Weislander (decatlo) e o norueguês Ferdinand Bie (pentatlo) reconheceram a superioridade de Jim Thorpe e se disseram constrangidos pela decisão dos dirigentes.

       Ao chegar de Estocolmo em 1912, Jim Thorpe desfilara em carro aberto, como um herói, pelas ruas da Broadway. Tornado um vilão, restou-lhe assumir o profissionalismo para ganhar a vida. Jogou algumas temporadas em campeonatos oficiais, vindo a falecer em 1953, como um indigente. Somente em 1982 o COI reabilitou o nome de Jim Thorpe, entregando aos filhos do atleta as medalhas que sempre foram dele, por direito.

       A arte moderna provocava indignação nos norte-americanos, em 1913. As pinturas e esculturas cubistas suscitavam críticas às vezes incoerentes nos editoriais do World, como esta: "Sem dúvida, a moral de uma multidão foi afetada, se não permanentemente danificada, pela contemplação da tela 'A Nudez Descendo uma Escada' e outros exemplos flagrantes da indecência cubista, embora dificilmente se possa diferenciá-la (a pintura) de uma pilha de tijolos desmoronando".
Pinturas incompreensíveis mas "indecentes"

Ataque ao cubismo
       A moral puritana atacava em várias frentes. O Conselho Municipal de Chicago proibiu a exibição pública de pintura ou fotos de nus, além de autorizar os policias a prenderem qualquer cidadão que estivesse cantando músicas cuja letra fosse "sugestiva de indecência ou imoralidade". E os proprietários dos cafés, instigados pelo prefeito, decidiram proibir qualquer tipo de dança em seus estabelecimentos. A manchete do World deu um tom jocoso às medidas: "Fotos devem usar roupas em Chicago".
Proibição do nu artístico

Proibição do nu - 1
Proibição do nu - 2
       Mas a tarefa não era fácil, especialmente quanto às danças. As casas noturnas atraíam um bom público, entusiasmado com os novos modismos: o "passo do peru", o tango e o "abraço do coelhinho", entre outros. Informava uma notícia: "Despachos enviados para o World indicam que a onda de proibições contra o 'passo do peru' e outras danças semelhantes se estabeleceu em todo o país". Outra complementava: "Nova Iorque não é o único lugar onde o 'passo do peru', o tango, o 'abraço do coelhinho' e outras danças semelhantes dividiram o público em dois campos ¾ aqueles que dançam e aqueles que não dançam. Todo o país foi tomado pela febre das danças; ou, já tendo passado a febre, recupera-se dela. Na maioria das metrópoles, e também nas pequenas cidades, há uma tendência geral para censurar as danças públicas, pela ação da polícia, de pregadores ou de reformadores sociais".
Nem "passo do peru" nem "abraço do coelhinho"

Proibição das danças - 1
Proibição das danças - 2
       A repressão atingiu o famoso bairro Barbary Coast, de São Francisco, onde várias casas de dança e de shows de variedades, de baixa qualidade artística, atraíam uma grande quantidade de norte-americanos. A venda de bebidas alcoólicas e a prostituição serviam como iscas adicionais. A notícia abaixo previa o fechamento das casas em pouco tempo, mas as atividades no bairro só terminaram em 1917. Uma parte da fama é explicada pelo texto: lá teriam nascido várias danças que viraram moda, entre elas o "passo do peru".
A repressão ao "Barbary Coast"

Proibição das danças - 3
       Outra dança popular na época era o tango. O anúncio do disco de um dos sucessos de 1913, "Gabbi Tango", informava sobre o modismo da dança, que tinha se tornado "popular em todo o país".
O modismo do tango

O modismo do tango
       Popular demais, segundo algumas autoridades. Em abril daquele ano, a Universidade Estadual do Wisconsin veio a proibir, entre outras atividades estudantis sociais, como o trote e o lanche a dois no gramado do campus, também as danças populares, entre elas o "passo do peru", o "abraço do coelhinho" e o tango.
A proibição do tango

Proibição do tango - 1
Proibição do tango - 2
       Aos poucos, os censores e os moralistas foram vencendo a batalha, como prova esta notícia do World.
A vitória da repressão

Proibição das danças
       Enquanto as autoridades e a mídia preocupavam-se em controlar o lazer dos cidadãos de bem, um grupo criminoso começava sutilmente a se destacar entre os imigrantes italianos. Sem possuir a designação pela qual viria a ser conhecida nas décadas seguintes (a Cosa Nostra), a Máfia norte-americana já instituía seus métodos nos bairros povoados por imigrantes. Na cidade nova-iorquina de White Plains, dez réus foram julgados por fazerem parte de um bando que vendia "proteção" aos imigrantes italianos, punindo com a morte aqueles que recusassem o pagamento.
O começo da Cosa Nostra

O começo da Cosa Nostra
       Nos lares, a principal causa de separação de casais era a bebida alcoólica (42% do total). Esse dado serviria como uma das justificativas para a implantação da Lei Seca nos Estados Unidos, medida proibitiva que durou de 1920 a 1933. E que fez a alegria dos mafiosos, especialmente na cidade mencionada na matéria abaixo: Chicago.
A destruição dos lares pela bebida

Separações causadas pelo álcool
       Em 1913, o socialismo tentava introduzir-se na sociedade norte-americana, acompanhando a difusão da doutrina em todo o mundo. A imprensa socialista era composta, em 1913, de 323 jornais que venderam dois milhões de cópias naquele ano. O famoso jornal texano Appeal to Reason (Apelo à Razão), que circulou entre 1901 e 1922, tinha uma tiragem média de 760.000 cópias.

       Essa expansão da doutrina socialista coincidiu com a intensificação das reivindicações trabalhistas nos Estados Unidos. O recorte abaixo registra o momento histórico em que as cozinheiras e as empregadas domésticas de Chicago formaram seu sindicato e passaram a exigir uma jornada de dez horas de trabalho e um dia de descanso por semana, férias e direito ao uso do elevador.
O sindicato das domésticas

O sindicato das domésticas
       As passeatas socialistas e trabalhistas agitavam os grandes centros dos EUA.
Passeatas de reivindicação

Passeatas de reivindicação
       As hello girls (telefonistas) de Boston também exigiam um período menor de trabalho diário.
Greve das telefonistas

Greve das telefonistas
       Mortes de sindicalistas e agitadores incitando à violência agravavam o quadro de conflito entre trabalhadores e autoridades.
Vítimas e agitadores

Vítimas e agitadores
       As organizações sindicais eram reprimidas a ponto de se negar a cidadania a seus membros.
A repressão legal

A repressão legal
A repressão legal
       A situação da mulher operária, algumas delas obrigadas a cuidar do filhos e a trabalhar à noite, e o valor ridículo das indenizações pagas em caso de acidente de trabalho, também serviam para agravar a indignação dos trabalhadores.
A mulher operária

A mulher operária
       A jornada de trabalho de 54 horas, implantada em alguns estados norte-americanos, era anunciada como um benefício às mulheres trabalhadoras.
A jornada de trabalho de 54 horas

A jornada de trabalho de 54 horas
A jornada de trabalho de 54 horas
       A própria criação da lei que obrigava uma empresa a selecionar uma médica para examinar as candidatas aos cargos oferecidos sugeria a existência de abusos e constrangimentos vividos pelas mulheres quando examinadas por médicos, naquela época.
O exame médico das trabalhadoras

O exame médico das trabalhadoras
       No ano de 1913 ainda ocorriam decapitações nos países ditos civilizados. As duas notícias abaixo informam sobre execuções públicas em Paris e Londres.
Rolando cabeças

Rolando cabeças
Rolando cabeças
       Também nesses países, a prática do duelo por questões morais ou pessoais ainda não havia sido eliminada.
Duelos e mais duelos

Duelos e mais duelos
Duelos e mais duelos
Duelos e mais duelos
       A república chinesa, decretada em 1911 e seguida da abdicação do imperador em 1912, foi reconhecida pelos Estados Unidos em 1913.
A república chinesa

A república chinesa
A república chinesa
       Algumas notícias já prenunciavam a guerra de 1914.
Prenúncios da guerra

Prenúncios da guerra
       Veja abaixo a imagem de um canhão utilizado nas guerras daquele ano.
Canhão de 1913

Canhão de 1913
       As guerras regionais que acabariam deflagrando a I Guerra Mundial (1914-1918) eram noticiadas diariamente no World, naqueles meses de abril e maio de 1913. A possibilidade de uma grande guerra na Europa também fazia parte das manchetes da época.
Guerras regionais

Guerras regionais
Guerras regionais
Guerras regionais
       O revolucionário mexicano Emiliano Zapata, que sublevou os camponeses daquele país em 1910 para implantar a reforma agrária, era combatido pelo governo central.
Emiliano Zapata

Emiliano Zapata
Emiliano Zapata
       A Rainha Mary, esposa do rei George V, se não era adepta do cigarro, permitia que as mulheres da corte adotassem o hábito então masculino.
A Rainha Mary e o cigarro

A Rainha Mary e o cigarro
       A Enciclopédia Britannica lançava seu primeiro "livro do ano", em 1913.
O Livro do Ano da "Britannica"

O Livro do Ano da 'Britannica'
       As escavações para a construção do canal do Panamá prosseguiam. A conclusão da obra se daria em 1914.
O canal do Panamá

O canal do Panamá
       Joana d'Arc, beatificada em 1909, era tema de uma notícia do World sobre o processo de canonização, que seria encerrado positivamente em 1920.
A canonização da Joana d'Arc

A canonização da Joana d'Arc
       O uso de substâncias radioativas para combater o câncer ainda se encontrava na fase experimental.
A radiação contra o câncer

A radiação contra o câncer
A radiação contra o câncer
       O telefone já era anunciado como uma das comodidades oferecidas pelas empresas aos seus clientes.
O uso comercial do telefone

O uso comercial do telefone
       O francês Pierre Daucort conseguiu neste ano percorrer de avião a distância entre Paris e Berlim.
O feito de Daucort

O feito de Daucort
O feito de Daucort
       O Zeppelin IV, dirigível militar alemão, iniciava mal sua carreira, equipado com sofisticadas metralhadoras e lançadores de bombas. Ao sofrer um defeito no motor, teve que aterrissar na França, sendo imediatamente apreendido pelas autoridades daquele país.
O Zeppelin IV

O Zeppelin IV
       Uma notícia curiosa: é de 1913 o primeiro suicídio cometido por um piloto de avião, quando no comando de uma aeronave. Indignado por intrigas envolvendo seu nome, o piloto russo Perlovski desligou o motor durante o vôo, vindo a falecer com a queda do avião.
O primeiro suicídio aéreo

O primeiro suicídio aéreo
      Na próxima página, conheça a situação dos negros e das mulheres em 1913, registrada nas notícias do jornal The World.
Referência
The World, The Press Publishing Company, Nova Iorque, abril-maio de 1913
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice Geral | Década de 10 | O Ano de 1913

Autor: Sérgio Barcellos Ximenes