História das Palavras Cruzadas

Notícias publicadas no jornal The World sobre as mulheres e os negros.
 
A Situação dos Negros e das Mulheres
As várias formas de luta pela cidadania
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       Em 1913, ainda não fazia 50 anos do fim da Guerra de Secessão, que dividira os Estados Unidos por causa da questão racial. A integração dos ex-escravos naquela sociedade processava-se lentamente, estando um pouco mais adiantada no Norte do país do que no Sul, tradicional reduto dos segregacionistas. O jornal nova-iorquino The World publicou, em abril e maio daquele ano (1913), algumas matérias que permitiam antever o longo caminho que seria trilhado até que, na década de 60, a questão fosse encarada com coragem pela sociedade norte-americana, resultando na eliminação da segregação racial até então sancionada por leis.

       A primeira notícia, abaixo, refere-se a um avanço: a criação do primeiro regimento da Guarda Nacional do Estado de Nova Iorque formado exclusivamente por oficiais negros. Um avanço em termos: evitava-se assim a possibilidade de que, num mesmo regimento, um negro viesse a dar ordens a soldados de cor branca.
O regimento negro

O regimento negro
       A notícia dava conta da satisfação dos líderes negros da cidade, certos de que a medida "impulsionaria a ambição dos negros e serviria para aprimorar a moral deles".

      Enquanto isso, uma outra realidade transparecia nas notícias diárias sobre o relacionamento entre brancos e negros. A carta de um leitor informava sobre a redução no número de linchamentos praticados nos Estados Unidos: nos três primeiros meses de 1913 tinham sido registradas "apenas" 13 dessas execuções sumárias, 11 a menos que no mesmo período do ano anterior. Quase todas as vítimas eram negros acusados de furtos, roubos e assassinatos.
Linchamento de negros

Linchamento de negros
       Outra forma de execução, esta oficial, era o enforcamento. A desumanidade associada à prática ficou registrada numa notícia sobre a execução de um negro que havia assassinado uma outra pessoa da mesma cor. O título: "A Corda da Forca, Muito Longa, Falha em Matar Instantaneamente". O subtítulo: "Negro, Começando a se Levantar depois da Queda, É Puxado para o Alto Até Ser Mortalmente Estrangulado".
Enforcamento de negros

Enforcamento de negros
       A cena ocorreu no condado de Uniontown, na Pensilvânia. "John Harris, um negro condenado à morte, foi colocado hoje no patíbulo da prisão do condado, e quando esse foi aberto a corda provou ser 3 pés mais longa do que deveria. Harris caiu ao chão, apoiado sobre os joelhos. Ele permaneceu imóvel por vários minutos, e pensou-se que a queda havia-lhe quebrado o pescoço, até que ele começou a se levantar. Então o xerife e seus ajudantes pularam para o patíbulo e puxaram Harris para cima, usando a corda, até que seus pés estivessem fora do chão. Por dezoito minutos ele lutou e se contorceu, suas contorções indicando a intensa agonia de ser estrangulado até a morte. ... A execução é a décima segunda da história do condado."

       Outra notícia publicada no jornal The World informava sobre cartas anônimas enviadas a um reverendo de uma igreja protestante, ameaçando-o por ter proibido o acesso de todos os negros aos cultos da congregação.
Discriminação contra os negros

Discriminação contra os negros
       O segregacionismo, quando não era prática, era desejo. As duas imagens abaixo relatam a indignação de membros e simpatizantes da Associação Democrática Nacional para a Eqüidade quanto à mistura de raças no trabalho burocrático. O título: "Mulher Branca Tomou Ditado de um Negro". O negro em questão estaria bêbado. Pouco depois, ele seria demitido por embriaguez. Eis o trecho da carta que uma estenógrafa enviara à organização: "Então eu tive que escrever o que o negro da cor de carvão, um bárbaro preto, me ditou. Senti então que, se uma mulher alguma vez teve um motivo justo para dar um fim à própria vida, essa mulher era eu. Sou uma sulista. Meu pai foi um oficial na guerra civil, e minha mãe era uma mulher muito refinada."
"Humilhada" por um negro

'Humilhada' por um negro
'Humilhada' por um negro
       Continuava a matéria: "Sem exceção, os oradores declararam que as condições nos departamentos do Governo, com relação à mistura das duas raças durante o trabalho, são uma desgraça para a capital nacional e para o país, e que essas devem ser modificadas. A segregação das raças foi a cura proposta. Essa é uma das bases da plataforma da associação. Até que as raças estejam segregadas, assim foi declarado, não pode haver eqüidade no serviço social qualificado".

       Não só os direitos dos negros, mas também os das crianças ainda não recebiam a devida atenção da sociedade norte-americana. Estes dois anúncios saíram no World, em 1913, oferecendo crianças para serem adotadas por estranhos.
Quem quer estas crianças?

Quem quer estas crianças?
       Não só negros e crianças: mulheres, também. Um leitor do World expôs, em 8 de abril daquele ano, a visão de muitos homens sobre o lugar da mulher na sociedade norte-americana: "... as mulheres são criaturas estragadas e precisam ser espancadas. Elas têm sido tratadas com tamanha indulgência e lisonja, e têm recebido tanta notoriedade, que não é surpresa elas terem se tornado convencidas e acharem que podem fazer o trabalho masculino melhor do que o próprio homem".
O lugar da mulher

O lugar da mulher
       A luta por um direito básico de cidadania, o direito ao voto, só se tornaria bem-sucedida para as norte-americanas em 1920, com a promulgação da décima nona emenda à Constituição. Até lá, muitas batalhas seriam perdidas. Ao contrário das mulheres inglesas, que optaram pela via do confronto e da violência, as sufragistas norte-americanas desenvolveram sua luta pacificamente, por meio de pressão política, passeatas e, quando presas, greve de fome. Essa opção era elogiada pela maioria masculina, mas isso não significava apoio à causa.

       Nas cartas dos leitores do World, os homens discutiam os melhores meios de acabar com o movimento, sugerindo entre outras medidas o bloqueio às fontes de financiamento e a censura consentida pela imprensa, evitando-se a publicação do nome das líderes do movimento.
As opções de contra-ataque

As opções de contra-ataque
       Uma das líderes desse movimento, entrevistada pelo World, deu declarações que incluíam uma predição histórica: "O homem do futuro terá muitas virtude hoje consideradas puramente femininas. As mulheres terão algo dos mais fortes e diretos elementos hoje considerados masculinos".
Uma predição histórica

Uma predição histórica
       A luta pelos direitos da mulher chegava às condições do casamento, como prova esta notícia de 7 de abril de 1913. O casal optou por eliminar a cláusula de sujeição por parte da mulher, para incluir uma declaração de "estima mútua", simbolizando a igualdade de direitos entre os cônjuges.
Um casamento histórico

Um casamento histórico
Um casamento histórico
       Naqueles meses de abril de maio de 1913, o World publicou várias notícias sobre o movimento sufragista e o andamento de suas iniciativas no Congresso dos EUA e nos vários Estados. Nesta, os legisladores de Connecticut rejeitaram o voto feminino por ampla margem.
O "não" de Connecticut

O 'não' de Connecticut
O 'não' de Connecticut
       A tentativa de estabelecer o voto no Estado de Michigan também fracassou, por mais de cem mil votos contrários. Numa das matérias sobre a votação, o World recapitulou a história do movimento sufragista, registrando suas conquistas e os Estados onde havia o sufrágio parcial e aqueles com o pleno direito de voto.
O "não" de Michigan

O 'não' de Michigan
O 'não' de Michigan
O 'não' de Michigan
O 'não' de Michigan
O 'não' de Michigan
O 'não' de Michigan
       Em 7 de abril, o Senado recomendava a rejeição da emenda constitucional que permitiria o voto feminino em todo o país e para todos os cargos públicos eletivos.
O "não" do Senado

O 'não' do Senado
       A primeira senadora da história dos EUA, Helen Ring Robinson, de Colorado, criticava a militância agressiva das sufragistas britânicas.
A crítica da senadora

A crítica da senadora
A crítica da senadora
       O World criticou em editorial a mudança de posição do ex-presidente Theodore Roosevelt, que antes declarara serem as mulheres sufragistas "possuidoras de corações tão frios a ponto de não conhecerem a paixão", e de terem "cérebros tão superficiais e egoístas a ponto de não gostarem de ter crianças". Em suma, verdadeiras "criminosas contra a raça". O ex-presidente participara de uma manifestação a favor do sufrágio feminino, na noite anterior.
Esqueçam o que eu disse

Esqueçam o que eu disse
       O tom sarcástico e crítico do jornal a respeito das sufragistas e das feministas gerava cartas de protesto dos leitores, como esta reproduzida abaixo.
A parcialidade do "World"

A parcialidade do 'World'
       O jornal também publicava cartas de leitores argumentando a favor do sufrágio feminino.
Carta a favor

Carta a favor
       As manifestações públicas favoráveis ao movimento envolviam milhares de participantes e contavam com uma invejável organização, como se pode deduzir desta notícia do World.
A mobilização organizada

A mobilização organizada
       Num dos artigos do World, as sufragistas norte-americanas eram elogiadas por seus métodos, em comparação com a violência empregada pelas sufragistas inglesas, mas essa violência era considerada (talvez malandramente) um dos motivos da rejeição doméstica do movimento: temia-se a adoção de um comportamento irresponsável também por parte das mulheres norte-americanas.
Uma desculpa conveniente

Uma desculpa conveniente
Uma desculpa conveniente
       A situação legal da mulher era tão exdrúxula que uma norte-americana foi obrigada a pedir o divórcio para poder se candidatar a um cargo de professora, já que mulheres casadas não poderiam exercê-lo.
Deu a louca na lei

Deu a louca na lei
Deu a louca na lei
       As americanas também lutavam por seus direitos em outras áreas, às vezes com uma pitada de malandragem. Segundo esta notícia, Vivian Prescott recebera a primeira permissão dada a uma mulher para participar da tradicional corrida de automóveis em Indianápolis. Antes Vivian se disfarçara de mecânico para poder participar de outra competição automobilística.
A pioneira de Indianápolis

A pioneira de Indianápolis
       Na Inglaterra, o movimento sufragista encontrava homens hostis não somente nas casas legislativas. Esta notícia registra a revolta de 15 mil pessoas presentes no Hyde Park contra a tentativa de realização de um comício pelas sufragistas inglesas.
A revolta dos homens

A revolta dos homens
A revolta dos homens
       A notícia abaixo ilustra os métodos radicais de ação das sufragistas inglesas: tocavam fogo às casas das autoridades que se opunham ao movimento, cortavam fios telegráficos das redondezas e pichavam dizeres contra Winston Churchill, então a maior autoridade da Marinha inglesa.
Te cuida, Churchill

Te cuida, Churchill
       A série de imagens abaixo registra outras ações violentas dessas sufragistas, incluindo a detonação de bombas, a destruição de dirigíveis militares e de castelos, e até a tomada de uma torre de observação de incêndio.
Botando para quebrar

Botando para quebrar
Botando para quebrar
Botando para quebrar
Botando para quebrar
Botando para quebrar
Botando para quebrar
Botando para quebrar
Botando para quebrar
       Um efeito previsível: o custo do seguro contra acidentes e incêndios cresceu em todo o país.
Inflacionando os seguros

Inflacionando os seguros
       Em 8 de maio, o World publicou um artigo que contava a história da principal líder sufragista britânica, Emmeline Pankhurst. Assim como as outras militantes, ela costumava empregar o método da greve de fome, quando presa. Para evitar a morte na prisão, as autoridades soltavam essas militantes depois de um certo número de dias. Isso ocorreu até a introdução de aparelhos de alimentação forçada: obrigava-se a mulher a abrir a boca, introduzia-se nela uma espécie de funil, a extremidade do aparelho, e na parte mais alargada colocava-se a comida, que descia diretamente ao estômago.
A líder do movimento na Inglaterra

A líder do movimento na Inglaterra
A líder do movimento na Inglaterra
       O julgamento e a prisão da líder sufragista foram descritos de forma dramática pelo World. Houve revolta da sentenciada e de suas aliadas, dentro da corte, e hostilidade dos homens que estavam esperando a saída das sufragistas, no lado de fora do edifício.
A prisão da líder

A prisão da líder
A prisão da líder
A prisão da líder
A prisão da líder
       A greve de fome adotada por Emmeline como protesto contra sua prisão acabaria funcionando. Entretanto, nova lei instituiria que a dispensa do cumprimento da sentença judicial, por motivo de saúde, passaria a ser temporária, até o restabelecimento do preso. A lei, intitulada popularmente de "gato e rato", seria aplicada doze vezes a Emmeline Pankhurst, nos doze meses seguintes.
A greve de fome

A greve de fome
A greve de fome
       Quando estava para ser levada novamente à prisão, Emmeline refugiou-se numa das sedes do movimento e armou suas companheiras, à espera do cumprimento da ordem judicial.
Daqui não saio

Daqui não saio
       O movimento se espalhava pela Irlanda, seguindo os mesmos métodos das miltantes londrinas.
O movimento da Irlanda

O movimento da Irlanda
O movimento da Irlanda
       Enquanto isso, as autoridades inglesas se antecipavam às iniciativas das sufragistas e prendiam as militantes em seus "quartéis-generais", confiscando material de propaganda e retirando a bandeira do movimento dos locais invadidos.
O contra-ataque policial

O contra-ataque policial
O contra-ataque policial
       Também os populares contrários ao movimento passaram a atuar com violência, contando com a condescendência das autoridades.
O contra-ataque da oposição

O contra-ataque da oposição
       O World continuava com a sua política de debochar do movimento sufragista. Numa nota na página de editoriais, perguntava se elas não tacavam fogo também às propriedades dos próprios parentes. Em outra, informava que um homem militante do movimento tinha sido obrigado a comer, por meio de aparelho especial, 114 vezes, mas que a imprensa não havia atribuído importância ao fato porque ele não era uma mulher.
Gracinhas do "World"

Gracinhas do 'World'
Gracinhas do 'World'
       A imprensa divulgava "diagnósticos" de médicos atribuindo o comportamento agressivo das sufragistas britânicas à loucura e sugerindo a internação das militantes em asilos.
Um caso psiquiátrico?

Um caso psiquiátrico?
       Um conde britânico, entrevistado pelo World, afirmava ser "extremamente duvidoso" que as mulheres pudessem dar alguma contribuição à vida política da Inglaterra, por meio do voto. E elogiava os homens, por seu fair-play, criticando de antemão as mulheres pela possibilidade de, ganhando o direito, ainda assim se apegarem a seus "privilégios".
Nós contra elas

Nós contra elas
Nós contra elas
       Uma Lady britânica, entrevistada pelo jornal, justificou os métodos agressivos das sufragistas de seu país pela maior grau de conscientização quanto à opressão masculina, e por terem sido tratadas como criminosas no início de sua luta pacífica.
O apoio da Lady

O apoio da Lady
O apoio da Lady
O apoio da Lady
       A causa seria derrotada em 1913 na Câmara dos Comuns, por 266 votos contra 219. Em 1918, em parte graças à atuação da mulher britânica durante a I Guerra Mundial (1914-1918), o sexo feminino ganharia o direito de participar das eleições, sem restrição. Emmeline Pankhurst, que fora libertada em 1914 e que atuara como líder na mobilização feminina para a guerra, deixaria o país ao final dela, retornando em 1926, já como heroína nacional. Faleceu em 1928. Em homenagem à sua luta, erigiu-se uma estátua que pode ser apreciada no bairro londrino de Westminster.
A derrota (temporária) da causa

A derrota da causa
A derrota da causa
A derrota da causa
      Na próxima página, conheça imagens e informações curiosas sobre o naufrágio do Titanic.
Referência
The World, The Press Publishing Company, Nova Iorque, abril-maio de 1913
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice Geral | Década de 10 | O Ano de 1913

Autor: Sérgio Barcellos Ximenes