História das Palavras Cruzadas

Análise dos elementos do primeiro jogo de palavras cruzadas, publicado em 21 de dezembro de 1913.
 
Alguns Toques de Genialidade
As contribuições técnicas de Arthur Wynne
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       Uma análise simples da criação de Wynne permite-nos identificar os pontos que ele aproveitou da herança dos enigmistas norte-americanos do século XIX, e aqueles que ele introduziu para elaborar o novo passatempo. Wynne não criou estes elementos:

      1. A idéia de um jogo de palavras cujas respostas estivessem organizadas numa forma geométrica.
      2. A idéia de um jogo de palavras no qual as palavras horizontais diferissem das verticais.
      3. A utilização da forma do diamante ou do losango para o jogo.
      4. A indicação das respostas por meio de definições.
      5. A numeração do lugar onde as letras das respostas deveriam aparecer.
      6. A designação Word-Cross.

       As imagens já apresentadas neste site, na parte da "História" relativa aos jogos de cruzamento de palavras, provam as afirmações feitas acima, de modo irrefutável.

       Agora os méritos de Wynne. Ele foi pioneiro na utilização destes elementos num jogo de cruzamento de palavras:

      1. O desenho de uma grade com subdivisões internas (as casas ou quadrados), para abarcar as palavras das respostas.
      2. A colocação de casas mortas (sem letras das respostas), ainda que implícitas (o espaço interno vazio), no interior do jogo. Esse pioneirismo implica outro: a presença de duas palavras numa linha ou numa coluna, inovação estrutural que veio a dar a flexibilidade interna necessária à evolução do passatempo.
      3. O oferecimento de casas vazias no interior do diagrama para serem preenchidas pelo solucionador.

       Unindo harmonicamente os elementos já existentes com os novos, introduzidos por ele, Wynne estabeleceu as bases técnicas de um novo passatempo, o jogo criativo e popular que os jovens enigmistas norte-americanos do século XIX procuraram com tanta dedicação, mas sem sucesso.

      Analisando os elementos do jogo de Wynne, um a um:

       1. A grade aparecera antes na "cruzada egípcia" e em modelos primitivos de caça-palavras. Mas na era moderna não há evidências de que alguém a teria usado num jogo de cruzamento total de palavras, e quanto mais persistido em seu uso a partir do primeiro emprego.

       2. As casas "mortas" haviam ensaiado seu aparecimento num quadrado de palavras publicado em agosto de 1871 e no diamante oco, como se pode ver neste exemplo escaneado do livro A Key to Puzzledom (Uma Chave para o Enigmismo).
O diamante oco

O diamante oco
O diamante oco
      Entretanto, nesse último jogo o que importava era a união de 6 formas, ou seja, quatro rombóides e duas pirâmides. Observe como ele se assemelha muito, visualmente, ao diamante oco de Wynne. Mas, apesar de a forma tradicional do diamante de palavras ter proporcionado a criação de jogos muito complexos, como o apresentado acima, não se encontrou nenhum jogo semelhante àquele criado por Wynne no qual duas palavras aparecessem numa mesma linha ou coluna, mesmo sem a presença da grade e sem o recurso interno da numeração. A informação vem de Will Shortz, a maior autoridade mundial na história dos jogos de palavras.

       3. Nos jogos tradicionais de cruzamento de palavras, a numeração era empregada apenas nas definições. Se a resposta apresentava as mesmas palavras nos dois sentidos, cada número da definição referia-se a uma linha e à coluna correspondente (ex.: "1" referia-se à linha 1 e à coluna 1). Se as palavras horizontais e verticais diferiam, elas eram definidas em dois blocos (horizontais e verticais), e cada número referia-se à ordem de posição na forma. Exemplo: "1." nas horizontais referia-se à linha superior; "1." nas verticais referia-se à primeira coluna, situada na margem esquerda da forma.

      As letras das respostas eram indicadas por pontos ou asteriscos, na apresentação do jogo, ou ficavam implícitas pela própria designação da forma. Se um jogo do diamante, como o exibido logo abaixo (revista St. Nicholas: For Girls and Boys de março de 1879), tinha cinco definições, claro estava que a maior palavra teria cinco letras e que o jogo seria formado por palavras de uma, três e cinco letras.
Jogo do diamante duplo

Jogo do diamante duplo
Jogo do diamante duplo

       Mas vários jogos apresentaram o sistema de numeração empregado por Wynne, no todo ou em parte. Por exemplo, esta escada de corrimão ao estilo antigo usa os números correspondentes às letras inicial e final da resposta para indicar as definições.
Antiga escada de corrimão

Antiga escada de corrimão
      O jogo foi publicado em maio de 1905 pela revista feminina Good Literature (Boa Literatura). Outros exemplos, o primeiro da revista St. Nicholas: an Illustrated Magazine for Young Folks (São Nicolau: uma Revista Ilustrada para os Jovens) de março de 1909, e o segundo da People's Home Journal (A Revista do Lar) de setembro de 1904.
Um cubo e um "blended squares"

O jogo do cubo
O jogo dos 'blended squares'
       4. A forma do diamante fora criada por volta de 1870. O diamante duplo, em 1873. O diamante oco apresentado acima saiu em 1904. A forma de Wynne é, tecnicamente, um diamante oco duplo.

       5. As definições faziam parte dos jogos de cruzamento de palavras desde a criação do jogo do acróstico simples, em novembro de 1762.

       6. A sugestão de que os leitores escrevessem as letras das respostas no próprio papel do jornal representou uma novidade. Os jogos de palavras eram resolvidos num papel à parte, naquele tempo. É muito provável que o Word-Cross de Wynne tenha sido um jogo pioneiro nessa utilização do próprio meio onde era publicado, ao deixar em branco a maioria das casas das respostas. Note, entretanto, que vários números cobrem suas casas, o que deve ter dificultado a prática, inicialmente. O escritor e historiador Ken Toyama, autor da obra Mistery of the Crossword (Mistério das Palavras Cruzadas), tem o mérito de haver percebido esse aspecto inovador do jogo de Wynne.

       7. O título, como ficou provado antes, estreou nos jogos de palavras em 1879, embora pouco tenha sido usado pelos enigmistas. Também se deve a Ken Toyama a percepção de que a palavra Cross, significando "cruz", pode ter relação com a idéia de Natal. É tentador especular que Arthur Wynne tenha chegado à idéia de criar um jogo de cruzamento de palavras ao pensar no símbolo religioso, e que a forma viável encontrada ao final de seus esforços tenha sido a do diamante de palavras.

       A partir desse jogo inicial, seriam necessários alguns desenvolvimentos para que o passatempo chegasse à sua forma atual:

       1. O aproveitamento da flexibilidade proporcionada pela grade reticulada.

       A forma do diamente existia havia quatro décadas. Restava aproveitar a inovação da grade que a limitava e aplicá-la a outros formatos, alguns antigos (quadrados, retângulos) e outros novos, ao gosto da criatividade dos enigmistas. Era necessário que eles captassem a mensagem: algo de novo aconteceu no reino da forma, e agora pode-se brincar à vontade com o formato global do jogo, assim como os enigmistas do século anterior brincaram com as formas geométricas.

       O primeiro diagrama retangular (12 casas x 14 casas), publicado em 12 de novembro de 1916 na revista dominical Sunday Magazine do World, serviu para consolidar uma das formas mais usadas hoje em dia. A outra é a forma quadrada, contendo o mesmo número de casas em ambos os sentidos.

       2. O aproveitamento da flexibilidade interna representada pelas casas mortas.

       Essa inovação eliminou o dilema que havia marcado, por décadas, a criação dos jogos de cruzamento de palavras. Se o criador aumentava o tamanho da forma (um quadrado de palavras maior, um diamante maior, uma pirâmide maior), a elaboração do passatempo tornava-se cada vez mais difícil e as palavras usadas, cada vez mais arcaicas e distantes do vocabulário do solucionador comum. Se ele se contentava com os tamanhos menores da forma, as palavras tendiam a se repetir, empobrecendo o nível intelectual do passatempo.

       Agora, com a liberdade de se inserir duas ou mais palavras numa linha ou numa coluna, surgia a possibilidade do uso alternado de palavras grandes e pequenas. O vocabulário poderia ser enriquecido sem que isso significasse um complicador a mais para os solucionadores.

       Faltava, portanto, que os criadores captassem a mensagem: aconteceu algo de novo no âmbito da divisão interna dos jogos de cruzamento de palavras, e agora pode-se brincar à vontade com as possibilidades de divisão criadas pelo uso das casas mortas. Não existe mais a necessidade de ir atrás de recordes baseados no tamanho cada vez maior da forma, já que a nova estrutura do passatempo permite uma variedade enorme na distribuição interna das palavras, e isso é muito mais interessante do ponto de vista criativo do que bater recordes contra o gosto do solucionador.

       As casas mortas apareceriam de forma explícita em junho de 1914, num jogo publicado por Wynne no mesmo suplemento (Fun) do jornal The World.

       Historicamente, seriam essas duas formas de flexibilidade (a da forma como um todo e a da divisão interna das casas), associada à flexibilidade do conteúdo (palavras e definições), os fatores responsáveis pela difusão do passatempo em várias culturas e pela sua longevidade. A cruzada norte-americana da década de 20 do século XX difere bastante daquela produzida na década de 70 (em forma e conteúdo), que difere daquela produzida hoje em dia (mais no conteúdo que na forma). A cruzada italiana difere bastante da norte-americana, em forma e conteúdo. O estilo chamado "sueco", ou diretas, mostra diferenças marcantes quando se compara o seu uso no Brasil e na Alemanha, por exemplo.

       Ou seja, o primeiro jogo de palavras cruzadas criado por Arthur Wynne continha, em germe, a possibilidade de adaptação do passatempo para o gosto de várias épocas e várias culturas. Trata-se de um diferencial único das cruzadas em relação aos outros jogos de palavras.

       3. A simplificação do sistema de numeração.

       O sistema de numeração de casas proposto por Arthur Wynne era engenhoso, mas tinha o inconveniente da ocupação completa de determinadas casas pelo seu número correspondente, o que impedia o solucionador de ali escrever a letra da resposta.

       Faltava adaptar o sistema à nova proposta de fazer o solucionador resolver o passatempo escrevendo no próprio meio onde ele era publicado, e não numa folha de papel à parte, como era comum nessa época.

       O moderno sistema de numeração dos jogos norte-americanos só foi adotado em 22 de julho de 1923.

       4. O estabelecimento de padrões técnicos de qualidade.

       Todo jogo de palavras oferece uma ampla liberdade quanto ao nível do vocabulário empregado pelo criador e dos conhecimentos exigidos do solucionador, desde os anagramas e as adivinhas, passando pelos enigmas e as charadas, e chegando às palavras cruzadas. É função dos mais competentes criadores estabelecerem um nível técnico ótimo que servirá como o padrão de qualidade para todos aqueles que se dedicam ao passatempo.

       Essa tarefa, como veremos adiante, seria entre todas a de cumprimento mais árduo e demorado. Um primeiro e precário nível de qualidade seria estabelecido na década seguinte a partir do lançamento dos primeiros livros contendo somente jogos desse passatempo, em 1924. Mas logo, com a popularização das palavras cruzadas, os novatos tomariam conta do mercado e criariam jogos sem demonstrarem a menor preocupação com a técnica. Somente por volta dos anos 40, com a introdução das palavras cruzadas no jornal The New York Times, sob o comando de Margaret Farrar (1897-1967), uma das editoras dos primeiros livros do passatempo, os padrões de qualidade técnica seriam retomados para, aos poucos, se estabelecerem definitivamente nas cruzadas americanas.       
Outros fatos históricos ocorridos em 21 de dezembro

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Morte do escritor italiano Giovanni Boccaccio (1375)
Primeiro uso de um anestésico cirúrgico, para amputar uma perna (1846)
Estréia do primeiro filme de desenho animado, "A Branca de Neve", da Disney (1937)
Primeira demonstração do funcionamento da lâmpada elétrica por Thomas Edison (1879)
O exemplar de Will Shortz

O exemplar de Will Shortz
      Na próxima página, conheça os itens comemorativos da primeira cruzada criada por Arthur Wynne.
Referências
A Key to Puzzledom, The Eastern Puzzlers' League, William W. Delaney, Nova Iorque, 1906
Good Literature, F. M. Lupton, Nova Iorque, maio de 1905
Imagem da primeira cruzada pertencente a Will Shortz, copiada do site da Ephemera Society
Ken Toyama, comunicação pessoal
St. Nicholas: an Illustrated Magazine for Young Folks, The Century Co., Nova Iorque, nov. 1908 - abr. 1909
St. Nicholas: For Girls and Boys, Scribner & Co., Nova Iorque, nov. 1878 - out. 1879
The People's Home Journal, F. M. Lupton, Nova Iorque, setembro de 1904
Will Shortz, comunicação pessoal (8/8/2000)
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes