| História das Palavras Cruzadas |
| As versões alternativas apresentadas por alguns autores e internautas para a autoria do primeiro jogo moderno de palavras cruzadas. |
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As Outras Versões do Início do Passatempo
Tem gente que acredita ¾¾¾¾¾¾ |
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Um dos resultados nocivos da falta de habilidade mercadológica de Arthur Wynne, o verdadeiro criador das palavras cruzadas modernas, era previsível: quando se cria um vácuo importante, alguém irá preenchê-lo. Arthur deu poucas entrevistas sobre a sua criação no enigmismo, não fundou nenhuma empresa para explorá-la de alguma forma, não escreveu um livro arrogando para si a autoria do passatempo ¾ resumindo, não deixou registros marcantes de sua ligação com as palavras cruzadas.
Vale lembrar que o suplemento Fun não trazia seu nome como editor dos jogos, no tempo em que atuou nessa função, e seus jogos também não vinham assinados, ao contrário daqueles criados por leitores que enviavam suas colaborações ao jornal The World. Some-se a isso a raridade dos artigos publicados na imprensa norte-americana sobre o passatempo e o caráter mais raro ainda dos livros sobre as palavras cruzadas, geralmente lidos apenas por quem já pertence à área do enigmismo. Essa ausência de informações concretas sobre o criador do jogo pode ser simbolizada por um fato: o primeiro livro a publicar uma foto de Arthur Wynne foi Mystery of the Crossword, do japonês Ken Toyama. Isso em novembro de 2002. A foto foi enviada por mim ao escritor, tendo sido escaneada de uma xérox de um artigo da revista Games, de autoria de Will Shortz, publicado em dezembro de 1983. É a última foto que aparece nesta página. O grande público, portanto, viveu um vazio sobre a identidade do autor do passatempo, durante estas nove décadas, condição ideal para que versões lendárias tomassem o lugar da verdade histórica. Por falta de explicação melhor, esse mesmo público acabou atribuindo autoridade a divulgadores de versões fantasiosas, aceitas apenas porque preenchiam esse vazio informativo. Examinarei todas as versões nesta página, uma a uma, com a intenção explícita de desmontá-las de modo definitivo, já que a pesquisa de mais de dois anos não revelou nenhum resquício de validade em nenhuma delas. |
| A VERSÃO DO "GUINNESS" |
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Uma das versões que circulam pela Web dá o status de primeira palavra cruzada moderna a um jogo do diamante duplo, publicado em 1875 na revista St. Nicholas: For Girls and Boys (São Nicolau: Para Meninas e Meninos): "Il primo cruciverba della storia è apparso sul St. Nicholas, una rivista di New York, nel 1875" (Silvana Marinelli). Às vezes, a autoridade do "Guinness", também conhecido como O Livro dos Recordes, reforça o valor da informação.
Mostrei nesta página que o jogo do diamante duplo tinha sido criado dois anos antes, em junho de 1873, e que, antes dele, o jogo do quadrado de palavras duplo surgira em fevereiro de 1871. Ambos possuem as mesmas características técnicas, mas não podem ser considerados jogos de palavras cruzadas na acepção moderna porque não apresentam a flexibilidade da forma, que seria criada pela grade reticulada, nem a flexibilidade do conteúdo interno, que resultaria das casas mortas. |
| A VERSÃO ITALIANA |
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Segundo os defensores desta versão, o italiano Giuseppe Airoldi, nascido em 18 de setembro 1861 na cidade de Lecco e falecido a 13 de dezembro de 1914, seria o criador do passatempo. Giuseppe era jornalista profissional e enigmista amador. Fazia parte do Gruppo Enigmofili di Lecco, que lançou em 1885 a revista La Palestra Enigmistica. Em 14 de setembro de 1890, ele teria publicado o primeiro jogo de palavras cruzadas na revista II Secolo Illustrato della Domenica, usando o pseudônimo "Inno Minato (ou Innominato) Monza".
No seu trabalho "Palavras Cruzadas no Brasil: Decifra-me ou Devoro-te" (2003), a jornalista Andréa Ribeiro reproduz um trecho do livro "Guia do Cruzadista", de Arnaldo Graner (1960), no qual o autor defende a versão italiana com base num artigo do enigmista Irineu Villas Bôas Esteves (Uerini), também publicado em 1960. Esse artigo traz uma interessante informação: Giuseppe publicou um passatempo intitulado "palavras quadradas" na "Palestra Enigmática", isso nos primeiros meses de 1885. Ou seja, tratava-se do já "velho" quadrado de palavras, criado em 1859 na Inglaterra. Na terminologia norte-americana, Giuseppe era um "formista", um enigmista perito na criação de jogos de palavras baseados em formas geométricas. O jogo publicado em 1890 na Secolo Illustrato foi reproduzido nesta página da "História" e trata-se, novamente, do "velho" quadrado de palavras duplo. Vale notar que, já em novembro de 1878, os garotos e as garotas que criavam os jogos da revista infanto-juvenil St. Nicholas denominavam esse tamanho de quadrado de palavras como easy (fácil). Curiosamente, um site italiano chega a sugerir que Arthur Wynne teria se apropriado da invenção de Giuseppe Airoldi, como se o jornalista inglês não conhecesse os quadrados de palavras desde o seu tempo de menino, quando era leitor da St. Nicholas, na qual esse passatempo tinha presença assegurada na seção mensal de jogos de palavras. |
| A VERSÃO INGLESA |
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É a mais fantasiosa e a mais criativa de todas. E é também a única que não possui nenhum elemento de comprovação. Nos dois casos anteriores, aqueles que defendem uma versão alternativa para a criação do primeiro jogo de palavras cruzadas ao menos apresentam uma prova documental, embora falha: um jogo de cruzamento de palavras, datado e realmente publicado numa revista de prestígio. Já no caso dos defensores da versão inglesa, eles não conseguiram, até hoje, apresentar nenhum indício comprobatório de suas afirmações.
Diz a lenda que, em 1915, o inglês Victor Orville (ou Orille, ou Erwill, de acordo com a fonte), de família rica, voltava com a esposa para casa, no condado de Oxfordshire, depois de comparecer a uma festa. Embora estivesse bêbado, quis dirigir o próprio carro. O previsível acidente causou a morte da esposa. Sentenciado por homicídio culposo, Victor viu-se obrigado a cumprir uma pena de 5 anos de prisão. Era pouco para ele. Movido pelo arrependimento, pediu para ser mandado o mais longe possível da Inglaterra. Assim foi feito: Victor partiu para cumprir a pena na Cidade do Cabo, na África do Sul, condenado à prisão perpétua. Obrigado à ociosidade na prisão africana, em sua cela de número 132 (para outras fontes, 732), Orville começou a brincar com o papel e o lápis, para passar o tempo, traçando linhas verticais e horizontais e depois preenchendo os espaços vazios com letras. A prática fez com que se tornasse perito em encaixar palavras nesses quadradinhos. A princípio, teria sido considerado louco devido à dedicação constante a essa atividade esquisita. Mas a mania se espalhou entre os prisioneiros, e logo o diretor da prisão tomou conhecimento da novidade (outra versão da lenda afirma que um médico teria servido de intermediário entre Orville e o diretor, após também tornar-se viciado no passatempo). Impressionado com o resultado dos esforços lingüísticos de Orville, o diretor teria então enviado alguns jogos a um jornal local, que os publicou, obtendo imediato sucesso. Ao sair da prisão, Victor já era um homem rico por causa da popularidade do passatempo. No "Guia do Cruzadista" de Graner, segundo Andréa Ribeiro, existe a informação de que Victor teria em seu nome, nessa época, "um depósito de dois milhões de libras". O final da lenda informa que ele teria falecido as 75 anos, em 1927, deixando sua fortuna para a governanta. Em retribuição, a criada teria registrado para sempre a relação de Victor Orville com as palavras cruzadas, mandando gravar na laje tumular "um retângulo dividido por traços horizontais e verticais que formam pequenos quadrados", segundo Graner, ou um simples cruzamento das palavras do nome e do sobrenome, segundo outras fontes: VICTOR no sentido vertical cruzando com ORVILLA no sentido horizontal, aproveitando-se a letra I como ponto de cruzamento. Mesmo um leitor desatento terá identificado várias incongruências internas na lenda. Primeiro, a transformação da pena de 5 anos em prisão perpétua, somente por desejo do condenado. Depois, o rico inglês teria sido condenado à prisão perpétua aos 63 anos de idade, em 1915. Portanto, não poderia, primeiro, ter saído da prisão, e depois, ter ficado rico em tão pouco tempo, já que teria falecido em 1927. Terceiro: dois milhões de libras por alguns jogos de palavras cruzadas? Na África do Sul? Em 1915, ou mesmo 1920 ou 1925? Como em todas as lendas, existem divergências em seus vários registros, criados à medida que as informações passam de pessoa para pessoa: algumas fontes citam 13 de setembro de 1913 como o dia da criação do primeiro jogo, enquanto outras afirmam que a história teria se passado no "final do século XIX". Outro elemento fantasioso mas criativo às vezes acrescentado à lenda é a origem da idéia do jogo. Victor teria percebido a sombra formada no chão quando as grades da janela estavam iluminadas pelo sol. E ali mesmo, no chão da cela, teria começado a brincar de preencher os quadradinhos. Ou então o próprio formato das grades da porta teria sido a inspiração para o jogo, ao perceber os quadrados formados pelos cruzamentos. Porém, mais importante do que as contradições internas e as divergências de datas e detalhes entre os próprios defensores da lenda é a absoluta falta de documentos comprobatórios dessa versão. . Não existe nenhuma imagem de um jogo de autoria de Victor Orville. Uma sequer. Se ele ficou milionário criando palavras cruzadas, deve ter produzido milhares delas. E deve tê-las publicado em dezenas de jornais e revistas. Mas nenhum desses jogos jamais apareceu. Também não existe nenhum livro de sua autoria. E nenhum jogo de sua autoria em livro algum de palavras cruzadas. . Os defensores dessa versão também não apresentam o nome de nenhum jornal e de nenhuma revista nos quais ele teria escoado sua extraordinária produção. . O mesmo vale para as características de seu trabalho. Como eram os jogos? O estilo de definição? O nível do vocabulário? As formas utilizadas? O grau de sofisticação dos cruzamentos? Ninguém apresenta, por exemplo, uma única definição feita por Orville. . A Biblioteca do Congresso Norte-Americano, a maior do mundo, não registra nenhuma criação desse misterioso prisioneiro inglês. . A história contada acima jamais foi referendada por um historiador, mas somente por divulgadores que reproduziram o que leram ou ouviram de outras pessoas. Nenhuma dessas pessoas foi atrás de provas ou exigiu provas de quem contava a lenda. . Não há nenhuma foto de Victor Orville. . Também não há artigos de jornais ou de revistas sobre ele ou sobre o modismo social que teria criado na década de 20 ou em qualquer outra década. . Se ele tivesse criado o jogo, outros teriam seguido seu exemplo fora da prisão (afinal, os próprios presidiários se tornaram criadores, segundo a lenda). Onde estão esses outros jogos e esses outros criadores, que teriam ajudado a difundir o suposto modismo? Tudo isso (jogos, imagens, fotos, artigos, seguidores, características do estilo etc.) existe em relação a Arthur Wynne. Para aqueles que, lendo todos os questionamentos acima, chegam a pensar que o próprio Victor Orville jamais existiu, aqui vai um consolo. A revista Il Mattino Illustrato, edição de 27/6 a 4/7/1938, traz como um dos artigos: Morto inventore delle parole crociate Victor Orille. |
| - (Fascismo\Periodici) IL MATTINO ILLUSTRATO. 27 giugno - 4 luglio 1938. Articoli o foto: Disastro del fiume Giallo. (coperta). Ventennale della gloria del Piave. Quadro di Vincenzo Migliaro. Morto inventore delle parole crociate Victor Orille. Venanzio Crocetti. Principessa Elisabetta a cavallo. Guerra di Cina. Ricerca del tesoro del Merida. Nazionale di calcio vincitrice del campionato del mondo (coperta). etc. Grande formato. Con numerose foto b\n e colore. Medio stato. pp. 16. Euro 8. Cod. 11588. |
| Repare no ano: 1938, e não 1927. Infelizmente, a revista já havia sido negociada quando encontrei o anúncio na Internet, em fins de novembro de 2003. Assim, enquanto não vierem os documentos que provem o feito atribuído a Victor Orville (ou Orille), existe apenas isto: um homem real e uma lenda criativa. |
A revista "Il Mattino Illustrato"
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| Il Mattino Illustrato foi a primeira revista do mundo impressa em quatro cores. |
| O trecho a seguir foi copiado do Google Book e reproduz seis parágrafos do livro Notas Curiosas da Espécie Humana, escrito por Jayme Copstein e publicado pela Editora AGE Ltda. |
Trecho do livro "Notas Curiosas da Espécie Humana"
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| AS VERSÕES MISTAS |
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É próprio das lendas apresentarem modificações à medida que o tempo vai passando. A ausência de uma base concreta, de informações inequívocas registradas em documentos, faz com que a imaginação trabalhe mais do que a memória.
Assim, este site alemão difunde uma curiosa versão dupla da lenda relativa ao presidiário cruzadista. Segundo ele, o criador do jogo foi um condenado inglês, de nome desconhecido, que inventou o passatempo desenhando a grade reticulada no chão da cela. Isso em 1852. Anos mais tarde, Victor Orville passaria por toda aquela história que já conhecemos e, desenhando a grade reticulada no papel, com lápis, criaria novamente as palavras cruzadas. Esta página de curiosidades do portal Terra sugere a quem lê a notinha que a primeira cruzada publicada no jornal The New York World, em 1913, teria sido criada por um presidiário "que passava o tempo desenhando as grades da cela em pedaços de papel". A mais curiosa mistura de lenda com fato é encontrada num site italiano já extinto. Após a publicação dos primeiros livros de palavras cruzadas nos Estados Unidos, em 1926 (o ano correto é 1924), os jogos teriam sido exportados para a Europa. Lá, o onipresente Victor Orville teria adaptado o passatempo segundo seus critérios técnicos, transformando-o no modelo atualmente utilizado em todo o mundo. A lição a ser extraída de todas essas versões é óbvia: o trabalho histórico deve ser realizado com base em relatos fidedignos e documentos verdadeiros. Quem pesquisa ou divulga os fatos históricos tem a responsabilidade de provar o que afirma ou, no mínimo, de indicar as fontes confiáveis em que baseia as suas afirmações. Não se faz História com lendas, disse-me-disse, ouvi-dizer, mas com documentos e provas, testemunhais ou documentais (de preferência, estas). No presente estágio dos conhecimentos históricos, considerando-se todas as evidências já apresentadas, não há como negar a Arthur Wynne o mérito da autoria do primeiro jogo moderno de palavras cruzadas. Na próxima página, conheça o segundo jogo de palavras cruzadas publicado por Arthur Wynne no suplemento Fun do jornal The World. |
| Referências |
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Antigo site de Ocón de Oro, em www.ocondeoro.net/historia.htm
Blanc et Noir: Game Corner: Crosswords Curiosidades, no portal Terra Kreuzworträtsel, Stefan Wilfert I Seguaci di Edipo che ci Spremeno il Cervello, Piero Palumbo (site que exige registro do usuário) Il Mattino Illustrato, 27 giugno - 4 luglio 1938 Libreria Neapolis Magische Quadrate und Würfel Mario Cermenati "Notas Curiosas da Espécie Humana", Jayme Copstein, Editora AGE Ltda "Palavras Cruzadas no Brasil: Decifra-me ou Devoro-te", Andréa Ribeiro, Osasco, 2003 Site do eBay italiano Storia del Cruciverba, Sara Pezzati, em http://www.miapavia.com/cultura/passatempi/cruciverba.cfm (2002) |
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice
| Década de 10 | A Primeira Cruzada Moderna
Autor: Sérgio Barcellos Ximenes
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