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A Literatura em forma de Tweet
 

. Nota: as explicações abaixo também seguem o modelo dos tweets.

  Tweet

"Tweet" é um texto publicado no site Twitter, na extensão máxima de 140 caracteres.

  O nome

O único registro de "literatweet" no Google, acessado em 12 de julho de 2009, data de 6 de junho de 2008, em texto de "mspro".

Atualização: em 16 de agosto de 2009, o serviço de Alertas do Google indicou a publicação de um site intitulado literatweets.com.

O site literatweets.com destina-se a promover concursos de poemas ou histórias curtas que tenham exatamente 140 caracteres.

  A forma de publicação

Os literatweets não são publicados no Twitter. Só estão disponíveis aqui, de 190 (o derradeiro) a 1 (o primeiro).

 

A Realidade em Três Tempos

  190

Assistiu ao filme da própria vida ao escapar da morte. Desaprovou roteiro, ator e direção. Voltou e viveu mais 30 anos da mesma história.

  189

O jovem muçulmano sonhava com as 100 virgens só para ele, esperando no Paraíso. Explodiu-se num atentado fail. Acordou numa sauna gay.

  188

No meio da turba, xingou a menina de minissaia. Filme no YouTube, antecipou o sucesso. Jovem, aprendeu o quanto lhe faltava para ser adulto.

  187

A mídia em pânico, perdendo poder. Segunda onda no mundo: depois do muxoxo, o confronto. Há um fascínio assustador nos processos históricos.

  186

Confissão constrangedora do escritor nas memórias. Festa macabra na mídia internacional. Um perito na ficção, um iniciante na realidade.

  185

Overdose de zumbis na literatura dos EUA. O crítico anotou. E pensou: "Sempre é bom saber o modismo que chegará atrasado no Brasil".

  184

A escandalização fracassou de novo. O comando continuou sem pistas. Era fácil: gerar indignação num povo alegre e nem um pouco ingênuo?

  183

Milésima gafe sem graça do premiê. Riso e deboche na mídia mundial. O premiê tranqüilo: sentimentos não pesam mais que poder e influência.

  182

A mídia trombeteando celebridades, escândalos, misérias, polêmicas. Silencioso, o país trabalhando e avançando. Há mundos opostos no mundo.

  181

O deputado mandava matar para ter audiência. Foi descoberto e preso. Há gente que faz o mesmo, sem ter coragem de contratar os assassinos.

  180

Cinco dias no hospital, de surpresa. Primeira ação, ao retornar: computador ligado. O choque: o mundo funcionara bem, sem ele como fiscal.

  179

A magreza da celebridade assustou. Interpretações colidiram: anorexia, depressão, separação à vista? Virou moda e assinatura: "pobre chic".

  178

A matéria, esquartejada em 10 páginas. Cada clique, uma decisão mais difícil. Web designers ainda não foram apresentados ao cansaço virtual.

  177

O DPC (Departamento de Produção de Crises) da mídia entrou em férias. Assuntos importantes voltaram. O cotidiano das pessoas não se alterou.

  176

O âncora da rádio enunciou a verdade suprema sobre 36 assuntos. Quase nenhum ouvinte concordou. Há ilusões publicamente inexplicáveis.

  175

A celebridade televisiva assinou contrato com a revista masculina. A mídia fez uma festa. O "operador" do Photoshop perdeu as férias.

  174

O estuprador foi pego no ato. Morreu linchado por quinze pessoas: socos, chutes, pauladas e pedradas. Todos se acharam melhores do que ele.

  173

Matéria no portal: polêmica literária entre monstros sagrados. Acusações, ironia, réplicas fulminantes. Na caixa de comentários, nada.

  172

O piloto bateu o carro de propósito. A estratégia deu certo enquanto durou. O carro foi reparado, a reputação ficou estragada para sempre.

  171

Racha no grupo de manifestantes. "Vamos criticar todos que erraram, não só esse político." Voto vencido: para ter mídia, o alvo da mídia.

  170

O treinador festejou a vitória atacando os críticos. "Quando era para ajudar, atrapalharam." Quando era para comemorar, zangou-se.

  169

A celebridade esquecida fez uma declaração escandalosa. Deu mídia. A volta por cima, em muitos casos, implica num caminho para baixo.

  168

Um escritor em momento de vazio criativo. Detonou o amigo de infância num crônica, a única idéia disponível. A necessidade ignora pudores.

  167

Mais uma frustração pesada — a última. Tomou a decisão final no momento de desespero. Não soube que no dia seguinte se sentiria melhor.

  166

Morreu o bom ministro. Pensamentos alternativos e deliciosamente maldosos na sociedade. É chocante perceber que Deus pode ter má pontaria.

  165

Terminou a carreira de jogador esforçado mas medíocre. Casas, carros, boa grana no banco. Ganhou mais que a maioria dos que o xingaram.

  164

Novo modismo japonês (ou chinês ou...?). Brotam especialistas, cursos, livros na arte "milenar". O passado é pai de ingênuos e espertalhões.

  163

Comemorava em seu blog o "fim da imprensa escrita". Aceitou um belo salário de um jornal. O futuro sempre pode esperar mais um pouquinho.

  162

"O Liquigás empatou com o Banrisul." "Não, filhinha, é Botafogo e Grêmio." Uma criança acordando para o tamanho relativo dos valores.

  161

A filha da estrela trocou "c" por "s". Escândalo em blogs, Twitter, portais. A dependência dos famosos é uma humilhação oculta, para muitos.

  160

Mais um doping no atletismo de alto nível. Doping de baixo nível: um diurético. Fosse doping de alto nível, exame algum teria detectado.

  159

O senador deu cartão vermelho ao senador. Risos, artigos, polêmica. Nesse jogo, o árbitro tem milhões de cabeças, mas só uma sentença: o voto.

  158

O DJ morreu de overdose. O corpo não conseguiu expulsar o lixo das drogas. O cérebro, esse agüentara bravamente o lixo das músicas.

  157

A professora extrapolou no palco e foi demitida. Chorou na TV. A fama e a sociedade fazem muitos convites traíras e safadinhos às mulheres.

  156

O adjetivo não vinha. Torturou o dicionário, xingou a memória, invejou os competentes. Virou adepto da escrita enxuta — ops! sem excessos.

  155

O namorado com outra: escandalizou ali mesmo, na rua. Tapas, xingamentos, choro. Perdeu o namorado e ganhou fama de barraqueira esganiçada.

  154

Newsletter do marketeiro: "desconto recorde, preciso pagar o IR". Brasileiro ajudando guru dos EUA. Erro de estratégia ou queda de máscara?

  153

Debochou da candidata: não era bonita e gostosa. Mais de 80 comentários humilhantes. Tantos ainda não perceberam que o mundo mudou, e muito.

  152

Mais uma vítima de trote universitário. Indignação geral na mídia. Ilusão, querer acabar com o início do treinamento nos valores da elite.

  151

O Governo abriu os arquivos sobre UFOs. Nenhum segredo, nenhuma nave, nenhuma captura de ET. Ufólogos juraram amor eterno à sua crença.

  150

O jovem escritor criou seu clone. Sentiu orgulho. Não percebeu o que os leitores perceberiam: os dois não haviam sofrido o bastante na vida.

  149

Depois do suspense, o resultado. Close na miss com a mão à boca, olhar surpreso. E, pela primeira vez no concurso, sorriu de verdade.

  148

A estrela posou nua com seu barrigão. Teorizou sobre o mistério da vida. Na prática, iniciava a criança nos valores das celebridades.

  147

A locutora deu a notícia da polêmica decisão do Congresso. A cara bonita fez cara feia, um recado do patrão. A realidade tremeu nas bases.

  146

O twitteiro faturou mais uma em publicidade oculta. O publicitário agradeceu. E pensou: "Triste. Posa de grande, vende-se como um pequeno".

  145

A mídia e a Oposição prepararam a festa. A depoente esqueceu o bolo. Esopo revisitado (em metáfora mista): os ratos não subiram à montanha.

  144

A supercampeã chorou ao perder, a surpresa do torneio. Foi mais falada que a nova campeã. O culto à celebridade ganhou mais uma do mérito.

  143

Notícia chocante: médico molesta paciente. Nos meses seguintes, 60 denúncias. Quantos só reagem à violência intimamente, em todo o mundo?

  142

No blog, cada post um hit. Bom de marketing, virou mainstream, rei dos feeds, novo hype, nunca um unfollow. Odiava ser chamado de Zezinho.

  141

Fim da palestra, o ex-drogado aplaudido de pé. No consciente de alguns, não faça o que ele fez. No inconsciente de outros, um dia serei ele.

  140

Seu apelido: "Senão". Sempre havia um "se não..." impedindo sua felicidade. Os amigos não entendiam de gramática, mas entendiam de vida.

  139

Foi barrado de surpresa em Madri. Voltou ao Brasil em crise de identidade. As razões de Estado podem ser tão cruéis na paz quanto na guerra.

  138

Cultivou a "base de leitores" por 3 anos, dia a dia. Vendeu 120 cópias do livro de contos. Quem se acostuma a ter de graça resiste a pagar.

  137

O chefe aceitou o trabalho: "passável". O empregado não aceitou o adjetivo: "insultante". Cada qual com seu dicionário muito pessoal.

  136

"Já estou indo, amor." Quarenta minutos depois, ela foi. O sentido de tempo é um (des)caso à parte nas relações amorosas.

  135

Não estava preparado: o livro, na bancada do sebo, ao lado de tanta nulidade. Comprou entristecido: um real. Autores são pais protetores.

  134

O resenhista "destruiu" o livro do grande escritor. Este, nada. O silêncio serviu de espelho: no espelho, a arrogância, a futilidade, nada.

  133

O colunista fechou o artigo com mais uma ironia corrosiva. Calculou que o patrão aprovaria. Já desistira de ser jornalista havia tempos.

  132

A cantora fez mais uma declaração escandalosa. Deu na primeira página dos portais. O leitor tentou mas não lembrou nenhuma de suas músicas.

  131

Ida à Lua? Armação da Nasa. Clube de Bildenberg, Comissão Trilateral, Illuminati: tudo dominado. Há paranóias que valem uma saga completa.

  130

Mais uma letra de amor, ele pensou, mais queixas, mais frustração. Deixou passar. É tradição: compondo, mesmo intelectuais se infantilizam.

  129

Acreditava em almas gêmeas. Por cinco vezes pensou tê-la encontrado. As ilusões do início de um relacionamento encheriam uma enciclopédia.

  128

O diretor do programa convocou o humorista. Nova orientação, do alto: nada de sexo, escatologia ou baixaria em geral. O programa saiu do ar.

  127

O filho do jogador na barriga, garantia de um futuro tranqüilo. A pensão, uma loteria por mês. Há desejos que cobram o preço a longo prazo.

  126

Terminou a leitura de outro livro de auto-ajuda. Sentiu-se de bem consigo mesmo por duas horas. Depois a realidade mostrou-lhe quem mandava.

  125

Era encantadora, desde criança. Portas, lares e carteiras se abriram naturalmente, por décadas. A justiça nada pode contra a genética.

  124

Deu show com as garrafas ao preparar o coquetel. O gosto da bebida ficou o mesmo. Às vezes, o supérfluo brilha mais que o essencial.

  123

Subir, na vida. Intenção que levou décadas para abandonar, teimoso. Ato que todo dia era obrigado a realizar voltando à favela, cansado.

  122

Apertou o botão ao comando do chefe. Do outro lado do mundo, o avião matou 12 pessoas. Levou uma boneca para a filha, ao voltar do trabalho.

  121

Morreu na explosão de um carro-bomba. Jamais participara de grupos sectários. Foi-se assim como veio: sem pedir, sem ter voz em seu destino.

  120

Milhares de amigos e apoiadores desempregados. Dívidas paradas, promessas largadas, negociatas adiadas. O governador perdera a reeleição.

  119

O jornalista esportivo se desculpou pelo erro de previsão. Os colegas da Economia e da Política, não. Compreensível: não fariam outra coisa.

  118

A conta foi alta por causa dos votos no "reality". A reunião da equipe decidiu sobre o eliminado. Há ilusões que nos custam muito caro.

  117

Fotos nítidas e deslumbrantes, em todos os portais. A subcelebridade passou no "teste do biquíni". O Photoshop passou no teste da enganação.

  116

Dia após dia, embates ferrozes na blogosfera. Sentia-se mudando o destino do país. A realidade, muitas vezes, cala movida por compaixão.

  115

O anúncio virtual bloqueou o texto. Xingou produto, empresa e site. Só devolveu: o interesse comercial já xingara o respeito ao consumidor.

  114

A confinada segredou um escândalo sobre outro confinado. Forte reverberação no lado de fora. Nem sempre uma fala destina-se ao interlocutor.

  113

Ficou nua com milhares, fazendo poses forçadas. Reparou em certos olhares não-naturistas. Nem todos que fazem arte têm intenções artísticas.

  112

Seu vídeo no YouTube, sua esperança de fama. Superou os comentários com antidepressivo. Jamais subestimou de novo a insensibilidade humana.

  111

A jovem atriz viu suas fotos íntimas na Web. Depois leu a declaração indignada dos advogados, no site de fofocas. "Deu certo", comemorou.

  110

Preparou-se para celebrar o 123456789 (12h34min56s de 7/8/2009). A campainha tocou um minuto antes. O recado do destino chegou via Sedex.

  109

Enfrentou seu primeiro arrastão. Os bandidos só pediram carteiras e celulares, "rápido!", de todos. Ficou com uma parte do produto do roubo.

  108

O hacker pôs a foto de mulher nua na primeira página do jornal online. O mundo riu. E, pela primeira vez, a publicação mostrou a realidade.

  107

O avião não-tripulado matou mais uma criança afegã. A mídia noticiou, de passagem. Não convém incitar a consciência contra os interesses.

  106

Olhou para o chão da rua, lixeira do povo. Lembrou-se das campanhas públicas, tantas, criativas. A publicidade é boa de vender ilusões.

  105

O homem trancou a porta do banheiro do bar e fumou, aliviado. Jogou "Bom-Ar" ao final. Saiu lembrando os tempos transgressores de criança.

  104

1. Ladrão! Corrupto! Filho da ***! Cangaceiro! Desonesto! 2. Desonesto! Cangaceiro! Filho da ***! Corrupto! Ladrão! Duas sessões do Senado.

  103

Olhou para o lindo corpo de 30 anos passados. Mudara muito, mais ainda nas fotos. Certas experiências desejadas são dádivas traiçoeiras.

  102

A notícia de surpresa tirou a base de seu mundo. O futuro de calma e promessas tornou-se ameaça. A maior rasteira da vida é a morte.

  101

Defendia a privacidade digital. No blog, contador, geolocalizador e identificador de cidade, origem, navegador e IP. Valores podem ser cegos.

  100

Ajustou a máscara protetora contra a gripe A. Olhou-se longamente no espelho. Pela primeira vez gostava do próprio rosto.

  99

Ouviu o zumbido de mosquito. Em poucos minutos, dez alarmes falsos do corpo. Toda paranóia é 1% fato e 99% imaginação em pânico.

  98

Sentiu algo estranho ao ler o blogueiro. Decidiu passar o texto pelo contador de palavras. Aí entendeu: a palavra mais repetida era "eu".

  97

Criaram um Museu Virtual da Corrupção. Na lista, nenhum empreiteiro, industrial, banqueiro ou órgão da mídia. Museu à brasileira.

  96

Preparava a 800ª pancada no Governo, um editorial raivoso. "Essa droga de Governo não cai!" Tinha um belo artigo sobre democracia num livro.

  95

Mais uma goleada contra. O torcedor mostrou enraivecido a nota de um real aos jogadores incompetentes. No jogo seguinte, daria mais ao time.

  94

Cultivou a idéia original por anos. Quando ia lançá-la, descobriu três "cópias" recentes. Hoje em dia, as idéias estão muito apressadas.

  93

O juiz corrupto foi aposentado com plenos vencimentos. Viveu anos e anos no bem-bom, sustentado por quem lesara. Há muitos crimes perfeitos.

  92

Lição de vida: pretensão travestida de moralismo. Lição da vida: correção vestida de sofrimento. Um artigo, às vezes, faz toda a diferença.

  91

A modelo nacional ganhou da atriz americana numa enquete feita no Brasil. Quesito: beleza. Privaram a atriz da gargalhada: ela não soube.

  90

Era assustadiça, mas só ela não percebia. As rugas horizontais na testa, já profundas na jovem. Todo e-mail viajava com ponto de exclamação.

  89

A viciada em games vai dormir exausta. O amanhã: promessa de mais dependência desesperada. Uma prova morta-viva do lado B da Informática.

  88

O spam era primário mas antigo, portanto vencedor. Promessas de riqueza instantânea... O que fazer, se há tanta ingenuidade no mundo?

  87

A conversa derradeira mas insuspeitada. "É que não tenho mais desejo, desculpa." Um sentimento pode ser uma agressão inominável.

  86

A dor de barriga coloriu o mundo. Até o hobby distanciou seu encanto. O ego, e suas infantis ilusões de controle...

  85

A cantora popular apresentou-se fora de forma. Blogs, twitter, sites: Ooohhh! Ninguém questionou a relevância do critério para a situação.

  84

O crítico literário terminou a resenha. Sentiu-se mais autor do que crítico. É preciso muita criatividade para elogiar certos clássicos.

  83

O ex-BBB não aparecia na mídia havia meses. Deixara até de ser chamado para presenças de boate. Às vezes, a fama é ponte para a obscuridade.

  82

A namorada pensou em pedir ajuda ao "amô". Lembrou o histórico da relação e desistiu. De onde só vem problema não costuma vir solução.

  81

"O computador remoto não respondeu", leu durante 4 horas. O sem-internet entendeu a mensagem. Usuários são convidados na festa dos patrões.

  80

O político foi ao estádio para aproveitar a vitória. O time, espantosamente, perdeu. Político é bom de caixinha, futebol, de surpresas.

  79

O âncora desancou as autoridades na TV, com fúria, pela milionésima vez. O ibope continuou baixo. Overdose de realidade não mata mas cansa.

  78

"Meu time é minha vida." Os quatro filhos, todos com nomes de jogadores. Os momentos mais felizes: tropeços improváveis do time rival.

  77

A jornalista desagradou ao patrão com a matéria. A esposa negou o sexo por causa do olhar safado. Toda revelação da realidade tem seu preço.

  76

Era atendente de telemarketing. Sonhou: o patrão, ouvindo seis horas de reclamações. Um sonho que teve o mesmo poder daqueles xingamentos.

  75

O cidadão largou o jornal, cansado com as safadezas. 67 anos de vida. Decidiu acreditar na reencarnação para sentir-se de bem com seu país.

  74

"Gorda!": agüentaria tudo, menos esta ofensa. O espelho era o fiscal diário. Quantos de nossos valores são implantes mentais de nossa época?

  73

Pagou cenzinho ao traficante com cara de bandido. Na ficha: assalto, roubo e seqüestro. O usuário era fraco nas relações de causa e efeito.

  72

Contou sobre a plástica, o namoro e o barraco na família. Ganhou capa. Faturar com a intimidade é o nome de um jogo popular na modernidade.

  71

"Como? Um escritor sem presença digital?" "Muito prazer, eu mesmo." Era da antiga: entre persuasão e produção, preferia a mais trabalhosa.

  70

Assustou-se: "Mais de 300 livros digitais!" Tinha lido 6... 5... 3, inteiros. Há pastas de computador que têm função de lixeira nobre.

  69

Entrou no próprio quarto. Não gostou do que viu. A tirada providencial aliviou a culpa: "Os aparelhos de ginástica são enfeites modernos".

  68

O editor leu o artigo do jornalista: críticas virulentas ao político. Olhou para as fotos disponíveis. Escolheu a mais ridícula.

  67

O e-mail denunciava o "erro" do autor. "Agora que já expliquei, mude o que você escreveu." Viver é se encantar com as relações de poder.

  66

Versão para religiosos

Levou mais um fora de namorado. "Homem não presta, é tudo safado." A lei do menor esforço só não esteve presente na Criação.

Versão para ateus

Levou mais um fora de namorado. "Homem não presta, é tudo safado." A lei do menor esforço só não esteve presente no Big Bang.

  65

Queixou-se, desanimado: "Ah, mas seu blog não tem RSS?" A modernidade, sempre inovando. Bem-vinda, preguiça digital.

  64

"Por favor, comprem meu livro." O apelo mobilizou leitores do blogueiro. Era um escritor original: não se constrangia em ser lido por pena.

  63

Fazia de tudo uma causa raivosa: do menor ao maior. Angariava seguidores fiéis e sedentos. Há pessoas que nasceram sem o senso de proporção.

  62

Foi massacrado na Web por uma opinião precipitada. Blogs adormecidos acordaram. Há muita frustração esperando por uma oportunidade rala.

  61

Achava-se uma excessão (sic). O mundo, bando de embecis (sic) que combatia nas caixas de comentarios (sic). Para o mundo, ele era um (sic).

  60

Entrou no blog da nova autora. O post: família; o seguinte: novos óculos ("Estou bonita?"). Ela reclamava muito da falta de oportunidades.

  59

Desfile de lingeries no programa de TV. A apresentadora elogiava as calcinhas e sutiãs. A câmera elogiava o restante.

  58

A capa com a nova modelo "vazou" na Web. A grande mídia divulgou: a foto e o "vazamento". A esperteza ganhou mais uma vez da ética.

  57

O blogueiro liberou uma open thread. " 'Open thread'? Que *&% é essa?", pensou o visitante. Demorou mas veio: "Ah! Tema livre..."

  56

O especialista criticou o pacote financeiro na rádio. Depois retomou o trabalho no banco. A transparência se cala quando o interesse fala.

  55

Era o terror literário do país. Quem o conhecia elogiava o doce de pessoa. Há escritores que usam a literatura para soltar seu lado B.

  54

Três ases na manga: religião, futebol e política; tirava um, se o acesso diminuía. O blog bombava. Ninguém mudava de opinião, só de inimigo.

  53

O pastor era sucesso na igreja. No íntimo, uma angústia oculta. "Por quê, meu Deus, por quê? Por que tanta gente com alma de carneirinho?"

  52

O artista rico defendeu a cópia livre na internet. A blogosfera polemizou. Há causas cuja defesa depende de quanto se perderá com elas.

  51

Debochava do japonês vestido de Elvis Presley. Mas era um roqueiro brasileiro (oh, yeah, my baby). O amigo americano poupou-lhe da verdade.

  50

O apresentador de TV degustava a iguaria, com seus convidados. Os espectadores só olhavam. Um dos convidados era consultor de etiqueta.

  49

Indignava-se a cada denúncia na TV. Sua vida, uma história de indignação. Indignou-se contra ou a favor, segundo os interesses da mídia.

  48

"Eu me garanto." Primeiro maconha, depois cocaína, depois LSD, depois ecstasy, depois crack. Garantiu milhares de reais ao dono da clínica.

  47

Comédia romântica. E depois de superar muitos obstáculos, o casal foi feliz para sempre. A arte supre muitas insuficiências da vida real.

  46

Paparicou o autor "preferido" para que lesse seu manuscrito. "Desculpe, sem tempo." O post contra a "fraude literária" não citava a recusa.

  45

O primeiro e-mail chegou atacando. O segundo, após resposta educada, teve lição religiosa antes do ataque. Abelha sim, mas espiritualizado.

  44

A manifestação de protesto foi tema da blogosfera por 10 dias. Apareceram 32 pessoas. A militância digital esvazia o gás da ação cívica.

  43

Na entrevista, o vice-presidente defendeu a tortura. Os sem-poder dividiram-se. Há bandidos de rua menos perigosos que alguns políticos.

  42

Orgulhou-se da imitação do ídolo. O parecer: "Tema, enredo, estilo, nada é original". Para alguns, literatura é exercício de auto-anulação.

  41

Um festival de palavrões e sexo: seus leitores não se chocaram. A esposa o trai, lendo outro autor. "A garota não defendeu a mãe. Chocante."

  40

O soldado faleceu na guerra suja da política internacional. Foi saudado como herói em sua pátria. Há homenagens insultuosas ao homenageado.

  39

O ex-ministro (ex havia muito) resolveu dormir. Centenas de telefonemas, então; três, agora. Há aniversários que revelam nossa realidade.

  38

O Governo se atrapalhou. Deu: "CPI pode sair hoje". Oposição incompetente é como certos blogueiros: depende do erro alheio para ter assunto.

  37

Zangava com "transar", "brincar", quanto mais palavrões: "é 'fazer amor' ". Faziam. Ele continuava transando, brincando e *** intimamente.

  36

O Grande Autor Comercial anunciou seu novo futuro sucesso. A mídia fartou-se. O trabalho dos Autores Literários sofreu muito naqueles dias.

  35

Desespero na Grande Mídia: a Web, a Blogosfera, o que fazer? A Lei, convocada, fracassou. A Liberdade de Expressão sorria serena, em paz.

  34

Foi processada por ser muito barulhenta no sexo. A lei impôs a decência. Existem limites para alguém tripudiar da infelicidade alheia.

  33

Era clone fajuto de famoso jornalista. Não admitia, achava-se melhor, menos caricatural. O interior não é um bom ponto de auto-avaliação.

  32

O escritor abominava "mensagens". Foi entrevistado ao lançar o terceiro romance. Explicou em detalhes o que queria dizer com a história.

  31

A ambientalista ficou nua na praça para divulgar a causa nobre. A foto reveladora bombou na Web. Poucos guardaram os dizeres do cartaz.

  30

O especialista espinafrou o Governo na TV. Recebeu elogios e cachê da emissora. Sem remorsos: a consciência não entende de negócios.

  29

Milhares de religiões e seitas, dúzias de noções da morte. E ela, esperando. Se o fato for diferente da crença, em qual deles se acreditará?

  28

O crítico interior vivia atazanando: "Você nunca será famoso". Ele ria: "Incompetente". Há pessoas que só querem viver um cotidiano de paz.

  27

Posava de independente e esperto. Aceitou ser blogueiro VIP: o trabalho gratuito pelo título. Há identidades que negamos ao primeiro teste.

  26

O troll insistia até que tivesse a última palavra: a ausência de resposta. Ganhou todas. Cada vitória, uma relação a menos no mundo.

  25

A jovem candidata foi eliminada por uma pesquisa na Web: excesso de exposição. O psicólogo da empresa deu umas dicas. Os pais, antes, não.

  24

Milhares de mortos no país invadido, e nada. Mortes de soldados do país invasor em dois dias: 8. O público indignado, o governo a perigo.

  23

A mulher-fruta caprichou na pose sensual. O Photoshop fez dela uma mulher perfeita. O leitor viveu uma fantasia com outra fantasia.

  22

O jogador marcou um gol de monumento. Comemorou apontando para Deus. Ninguém no estádio percebeu a relação com as guerras religiosas.

  21

A subcelebridade iniciou um movimento no Twitter e a geração tô-nessa adotou. A celebridade expôs o mico. Os subs são sub por algum motivo.

  20

O reality era a última esperança de sucesso. Saiu na primeira semana, marcada como barraqueira. O público tem razões que a mídia desconhece.

  19

O blogueiro postou ofensas ao gigante literário. Amigos divulgaram, esperançosos. O escritor criava sua obra-prima no silêncio do quarto.

  18

O portal mostrou o "descuido" da aspirante a atriz na praia. A notícia mais acessada. A assessora de imprensa deu um extra ao fotógrafo.

  17

O vídeo de sexo: ele e duas russas esculturais. O diplomata estrangeiro, humilhado, se demitiu. Há trabalhos em que nem no lazer se relaxa.

  16

Por décadas, o senador domou o monstro da imprensa: só atacava inimigos. Chorou ao ser atacado. Aprendeu tarde: monstros comandam o jogo.

  15

Deu um up no look, fez peeling, evitou o over, ficou in. Tornou-se sexy e fashion, um must na night. Só ao falar português ficava down.

  14

Comemorou o recorde de acessos, agradeceu as visitas. Muitos parabéns nos comentários. Omitiu sua tristeza: a maioria nem durava um minuto.

  13

Desistia fácil, não lutava, ânimo escasso. Mas jogou 28 anos na loteria sem ganhar. Às vezes a vida nos dá o certo no contexto errado.

  12

Chegava ao fim da carreira no time da Terceirona. As histórias dos bons tempos alegravam a concentração. E tornavam a decadência mais doída.

  11

Era fã do UFC, e sempre assumia o lado de quem massacrava. O filho apanhou de bandidos na rua. Nos acasos da vida, ninguém escolhe o lado.

  10

A atriz, cansada de fingir, fechou a porta. Pensou na criança espontânea que fora, havia muito. Há profissões que nos afastam de nós mesmos.

  9

Arriscou a carreira para derrubar o Presidente. Tramou, mentiu, vendeu-se, foram vários "quase". Há pessoas incapazes até na destruição.

  8

Foi chifrado em rua de Pamplona. Nos anos anteriores, tinha conseguido fugir dos touros. Nunca mais conseguirá fugir da própria insensatez.

  7

O líder mundial apreciou o farto encanto da jovem estrangeira. O mundo polemizou. Ela aprendeu o poder da mulher sobre os homens do poder.

  6

Sempre ajudou a igreja com o dízimo. O desemprego veio, ficou, não tinha reservas. A poupança espiritual não é investimento para este mundo.

  5

Foi a primeira vez que pensou em si mesmo como pardo. Entrou na faculdade pelo sistema de cotas. A "mentira branca" doeu num negro.

  4

O governador se louvou ao receber o prêmio falso no exterior. A blogosfera riu. A grande mídia justificou a reputação.

  3

Tomou um frango na casa do adversário, no exterior. No rosto dos companheiros: "Adeus, campeonato". Jamais a solidão foi tão barulhenta.

  2

Na caixa de comentários, ironizou a celebridade morta. Xingou dois em caixa-alta, um em estrelinhas. Sempre se sentiu pessoa boa e decente.

  1

O oposicionista corrupto atacou o Governo perdulário; a mãe assistiu no pronto-socorro, o filho doente ao colo. "Sinto, não há curativos."

 
O roteiro romanceado é o cinema da imaginação.

Sérgio Barcellos Ximenes
2005/2010